Meu primeiro contato com Solaris foi através das frustradas tentativas de assistir o cultuado filme soviético dirigido pelo incrível Andrei Tarkovsky.  Frustrado por que nunca estive pronto o suficiente para vê-lo, as as três tentativas foram em vão, não só pelo sono (ver Tarkovsky à noite é pedir pra dormir), mas por que definitivamente eu não tinha bagagem suficiente para compreender o cinema soviético cult e profundo oferecido por ele. Não tornei a assistir agora depois de conhecer o romance, quem sabe tenha outros olhos a respeito da obra, certamente ela não é cultuadíssima por acaso.

Porém ao descobrir que a editora Aleph lançou recentemente uma versão incrível de Solaris com uma qualidade gráfica impressionante não pensei duas vezes. Caí de paraquedas na ficção proposta pelo polonês Stanislaw Lem, o livro escrito em 1961 trazia a tona um popular tema da época, a exploração espacial e a busca por vida fora da terra. Sem dúvidas não imaginava de que forma Lem iria catapultar-me para dentro do universo solarístico. É importante salientar que apesar do tema complexíssimo que se desenrola com o decorrer do livro, Solaris é de uma leitura fácil, quase pop e sem dúvidas viciante. É possível lê-lo em muito pouco tempo.

Kelvin, o protagonista da história é chamado para viajar até a estação espacial que se encontra acima do planeta Solaris. Pouca coisa é falada a respeito da localização histórica do romance, o que sabemos é que estamos observando um período onde o homem já está a mais de cem anos rondando e pesquisando um enorme planeta batizado de Solaris, depois de todo esse tempo praticamente nada foi descoberto a ponto que mudasse a humanidade, ainda que o planeta seja por si só um organismo vivo! Sim, Solaris é um planeta coberto por uma espécie de mar, uma substância que permeia todo seu globo e que de alguma forma é viva. Essa substância responde a certos testes através do movimento de seu “material”, e como um mar revolto, cria fenômenos inexplicáveis e incompreensíveis em seu ambiente quando observada pelos olhos humanos.

Depois de todo fracasso em tentar qualquer contato direto com a suposta “entidade” as pesquisas começam a entrar em declínio e a estação solaris permanece apenas com alguns poucos tripulantes em pesquisas esporádicas. Kelvin é psicólogo (além de astronauta) e é chamado à estação para compreender o que vem se passando com os tripulantes, dado que perdeu-se o contato com os mesmo já fazia um tempo. Ao chegar na estação depara-se com uma estranha situação: Todos os autômatos (robôs de auxilio) estão trancados em um dos compartimentos, o ambiente está estranhamente abandonado e finalmente ao encontrar um dos membros da equipe percebe que este está claramente fora de si, agindo de forma estranha e desconfiada (e depois de ler você entenderá por que), a seguir descobre que um dos membros, conhecido seu, suicidou-se. Começa a então tentar descobrir o que vem acontecendo nesse planeta.

Daqui para frente é necessário falar um pouco sobre a trama. Não sei se podemos considerar como um spoiler por que livros como estes não se formam pela linha de acontecimentos, não são importantes por algum movimento específico em determinada parte da jornada, mas sim pela sua qualidade literária. Quanto mais Kelvin estuda a respeito do planeta lendo algumas literaturas presentes na nave, mais o leitor compreende junto como funciona este estranho e complexo planeta. Lem criou um verdadeiro arcabouço de detalhes a respeito do planeta a ponto de imaginar-se que este existe. Mas algo não está na literatura científica da estação e só é descoberta por Kelvin quando tal fato acontece para si. A começar com a arrepiante sequência onde ao ouvir passos descalços no corredor da nave, Kelvin sai para investigar quem era e depara-se com uma imensa mulher negra, semi-nua, apenas com uma canga tribal passando por ele (como se este fosse um objeto qualquer).

Pouco tempo depois as coisas chegam a outro nível quando Kelvin acorda em seu quarto na estação com a presença de sua falecida esposa, ali sentada em sua cama, sorrindo e esperando para conversar com ele. Ela não sabe como veio parar ali, e não quer saber, quer apenas estar ali e olhar pra ele, amar ele. Não demora para Kelvin descobrir que de alguma forma essa réplica de sua amada era uma espécie de intervenção do planeta, mas o que queria dizer? Por que um contato dessa forma? O que estavam fazendo? Por que cada tripulante recebia “uma visita”? Qual era a intenção? E o pior era descobrir que tais visitas não podem morrer, não morrem.

Mais e mais Kelvin torna-se obcecado pelo planeta e também por essa réplica que veio lhe visitar e simplesmente não pode nem mesmo ficar longe dele. O livro triunfa principalmente no questionamento filosófico e existencial de Kelvin diante deste planeta absurdo e assustador e da ineficiência do homem em tentar entende-lo. Dando ao leitor a terrível pista de que talvez não só o planeta não quer contato conosco, como não compreende o conceito de contato e que a vida não precisa seguir nem mesmo a lógica racional de procurar outra vida. A evolução tem seu caminho complexo e cada mundo é diferente do outro. O livro não traz consolo algum ao anseio do homem por respostas, assim como o silencioso oceano laranjado de Solaris com suas convulsões mecânicas e completamente incompreensíveis, nos deixa vagando em algo entre a paz da meditação e o arrepio de medo do desconhecido. Stanislaw Lem desconstruiu o conceito da ficção ao nos dar esta obra, não tive oportunidade de ler mais nada dele por hora, mas só por este livro, ele já gravou seu nome na literatura.

Para quem gosta de:
Filosofia espacial, horror cósmico, existencialismo, descrição detalhada, livro rápido, ficção científica no seu auge, futuro distópico.

Fontes das imagens:
Stanislaw Lem e Fan art de Solaris


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