Volodymyr Orlovsky Storm clouds 1884

Fragmentos de uma existência

Introdução

Inicio aqui a publicação de uma grande quantidade de escritos fragmentados que vim criando e guardando já faz mais de quatro anos. Quem sabe um dia isso se torne um livro físico, real, de papel. Quem sabe não. O fato é que existem emoções demais guardadas nestas páginas e parece-me no mínimo fundamental para mim mesmo liberar este material para o universo. Quem sabe alguma alma torturada encontre este material e possa tirar proveito, ou mesmo se identifique com o material.

01

O PERÍODO VENLAFAXINA

Havia uma espécie de amargura simpática em seu rosto, uma face de conformação temporária talvez. Irritava-o aquele gosto de cáseo na boca, sentindo a língua pastosa e áspera enquanto ficava ali estagnado no sofá sem força de vontade suficiente para ir ao banheiro higienizar seu órgão de comunicação. Sentia-se tão irritado com a situação que se ocupava de torturar-se com isso, e sempre o fazia quando queria de alguma forma se punir ridiculamente: obrigava-se a permanecer em algo que odiava, que lhe fazia mal ou que o irritava, como por exemplo não se permitir ir urinar mesmo que estourando de necessidade, por uns minutos a mais, só pelos erros que cometera em determinada situação. Tristemente essa técnica bastante estúpida não funcionava para coisas mais úteis ou racionais, por exemplo quando decidia que não comer doces ou qualquer carboidrato que o agradava seria uma punição. Nesse caso, automaticamente os mecanismos mais sofisticados de auto sabotagem se punham a trabalhar e logo estava chafurdando no chocolate ou em qualquer lixo alimentar.

Ali no sofá, bastante confortável, sentia-se oprimido pelo universo, não de forma metafísica ou surreal, apenas sentia-se patético diante do desenrolar dos fatos, principalmente dos fatos que vieram acontecendo nos últimos meses. Era provavelmente a décima tentativa de separação. Tentativas sempre frustradas. Por que não se davam ao tempo de nem mesmo sofrer. Era tão ridículo que não tinham para onde fugir. Olha para o lado e observa o rosto adormecido dela, seus cabelos lisos, castanhos, suaves, como o cabelo de David Glmore no filme Live at Pompei, no auge da sua força juvenil, selvagem, psicodélico, criativo, bonito. O cabelo dela sempre lhe lembrava isso, em especial aquela cena, da música Echoes, música que aliás tanto tocou, tanto desejou tocar de forma realmente bonita, mas jamais foi capaz. O mais perto que chegou disso foi numa época do passado (ah, o passado) onde ele e outro amigo decidiram-se por tocar algumas poucas músicas, treina-las até a exaustão, para ficarem perfeitas, simplesmente pelo prazer de tocar bem. Durou um certo tempo e foi bom enquanto durou.

Os olhos dela, agora fechados não mostrariam à um desconhecido seu verde cachoeira com tons de ardósia que só podem ser vistos diante de um raio de sol suave, daquelas manhãs de inverno, quando a luz entra pela janela sem irritar os neurônios por estar quente demais ou frio demais. Quantas vezes ela pedira para ele descrever seus olhos, sentia uma necessidade eterna de que afirmasse sua beleza ou seu amor por ela, não por qualquer situação egoica, mas sabia ele, por simplesmente insegurança, uma insegurança tão forte e tão intensa, que fazia perfeitamente o papel de antípoda na relação. Seus lábios carnudos, um dos detalhes mais importantes de sua beleza, mantinham-se entreabertos, ele observava-a com carinho ainda, mas não conseguia mais realmente sentir qualquer palpitação ao observá-la. E como tentava, quantas vezes se pegava pensando no por que, por que é que não se pode prolongar ou mesmo re-brotar a sensação da paixão ou daquele calor intenso de amor? Ele sabia que ainda a amava, que sentia um carinho sem limites por ela, que desejava poder abraça-la e cuidar dela, mas ao mesmo tempo, sabia que isso não queria dizer que ele “amava” ela, como alguém que poderia garantir-se como esposa para o resto dos tempos, que aquele fraternismo, aquela paz do abraço, aqueles lábios ainda que quentes e macios, não eram o suficiente para garantir um relacionamento de verdade por muito mais tempo. E quanto tempo já estavam assim… Ambos sabiam, ambos se questionavam internamente, em silêncio, pensavam nas hipóteses, nas possibilidades, nas dores de uma separação, mas mesmo com a melhor das esperanças, com o maior dos esforços, não conseguiam manter-se numa linha suficientemente firme para dizer que estavam completamente certos de seu destino e firmes em seu amor inquebrantável.

Mesmo um punhado de consultas com uma psicóloga bastante amável e determinada em ajudar não fizeram muito mais do que organizar algumas certezas pessoais em cada um deles, o que mostrava que ambos precisavam e ainda precisam seguir se corrigindo e aprendendo a existir, mas que no âmbito do amor, entre eles, pouca coisa conseguia mudar de fato. Ele não conseguia deixar de fazer uma analogia entre as experiências psicodélicas de cura, através de plantas enteógenas e essas novas tentativas de reconstrução do relacionamento. Ambos começavam com um grande momento de decisão de mudança. No caso da experiência psicodélica, nas horas pós viagem, a pessoa se sentia pronta para mudar o mundo e faria de tudo para seguir os novos aprendizados pessoais que absorveu, a revisão de sua vida, e o mesmo acontecia depois de uma boa ida ao psicólogo, onde encontrava seus erros e acertos e julgava possível recomeçar agora com novas ferramentas. A primeira semana em ambos os casos ia bem, você faz tudo melhor, mas mesmo nessa pequena semana, já se pode perceber um declínio no ânimo e na força de vontade, onde pouco a pouco se volta a velhos hábitos, a velhos sistemas e velhos erros. Algo como uma curva da aprendizagem ao contrário, de regressão ao invés de evolução. Erros tão básicos, basilares, pétreos, acinzentados, cobertos de fungos, incrustados numa alma tísica. Quase podia se ver como um esqueleto caricato, um zé-caveira, com as juntas inflamadas, enredado em teias de aranha, tentando desgrudar da catacumba em busca de luz solar saudável, desejando viver a vida de verdade.
Talvez precisasse mesmo é de uma psicologia mais forte, desenterrar a alma, fazer um estrago em si mesmo para depois se reconstruir, mas não fora possível, devido talvez as zonas de segurança dessa psicologia encontrável por aí, seja nas faculdades, seja nos consultórios, algo tão morno e macio, tão manso e querido, que jamais poderia salvar alguém de verdade. Como um amigo havia lhe dito, os professores de psicologia conseguiam colocar citações do livro “O Segredo” ao lado de citações de Lacan ou de qualquer trecho de Behaviorismo.

Logo estava errando tanto quanto antes, e então percebia-se em meio a um conflito tão estúpido que não podia acreditar. As vezes nem mesmo compreendia o que aconteceu, é como se por um minuto tivesse um lapso de realidade, estava ali pensando na cachorra que tinha e que levava para fazer trilha e nadar na barragem e no momento seguinte estava recebendo gritos violentos, acusando-o de não ser capaz de fazer nada para ajudar, de ser alguém que não se mexe, não coopera. Mas sempre deixou claro que o problema não é a reclamação, não é a discussão, isso é importante, para não dizer “intrínseco a qualquer relação humana”. O problema é que não esperava se perceber com vinte e oito anos de idade sendo tratado a base de gritos e insultos, violência verbal e psicológica, uma fúria que podia ser sentida claramente no ambiente, quase tátil, mesmo agora, cético e no mínimo agnóstico, não havia dúvidas quanto a “sensação” dessa “energia”. E da mesma forma, ele se fascinava ao perceber como ela ficava feia quando brigava com ele, enquanto gritava. Transformava-se. Ele sempre percebia isso nas pessoas, nas mulheres. Não era uma questão de beleza ou estética, mas é como se toda aquela essência feminina, todo aquele elixir, fosse drenado e substituído por algum veneno lento, que pouco a pouco causa uma distorção azeda e convulsiva na alma da pessoa.

Ele quase sempre era estúpido o suficiente para argumentar e tentar provar-se certo diante de uma acusação, mas quando conseguia segurar-se e não agir, simplesmente observar, trazia no rosto um olhar curioso como de um pesquisador, ou de um idiota tentando aprender uma nova língua, à base da força. Observava com um semblante confuso, com as sobrancelhas franzidas aquela reação violentíssima dela, como se não acreditasse. O que causara isso? Como poderia mudar tão rápido de humor? E ali mesmo, enquanto todo esse fluxo incessante de raciocino desregrado lhe passava pela mente, observou nos braços dela aquele pequeno ser, dormindo de uma forma um tanto sofrida, como uma pequena boneca inerte, que só se mostrava viva pelo suave movimento abdominal repercutido na manta rosa que a envolvia. Colocou a mão na pequena testa para confirmar que o estado febril enfim passara, já não aguentava mais.

Fora uma semana especialmente massacrante, não só pelo de sempre, mas pela gripe forte que pegara sua pequena filha. Ao continuar observando a cena, como uma composição artística, sua mulher desabada no sofá, dormindo na posição que deu para dormir, assim como faz quase todas as noites, dobrando-se em posições desconfortáveis para poder manter o peito ao alcance da filha, e sua pequena ao lado, seria uma cena casual, uma cena comum, mas era tão surreal ao mesmo tempo. Pensou em como a vida pode ser complexa, complicada. O que fizera de fato? O que aconteceu? Definitivamente não se arrependia, jamais foi uma pessoa de se arrepender, muito menos em questões que envolvem algo tão sério, mais especificamente, o desenvolvimento de um ser humano. O único arrependimento que teve por um tempo foi de ter vacilado no trânsito certa vez onde um caminhão lhe bateu na porta e destruiu-a, por puro erro seu, mas o assunto se resolveu por conta própria no seu devido tempo, assim como tudo mais na sua vida, onde, com paciência e falta de opção, as coisas tomam um rumo quase engraçado de tão positivo, o que faz sua mãe insistir em dizer que ele tem sorte na vida e tudo sempre vai dar certo. E de fato dá, indiferente dele acreditar em quaisquer questões esotéricas, apenas acha que se quer, ele pode conseguir.

Mas o que fazia dessa cena do fim de noite algo tão surreal e ao mesmo tempo incômodo, como naqueles pesadelos, que não deveriam nem ser catalogados como pesadelos, e sim como sonhos pesados, repletos de significação grave. Talvez estivesse apenas ecoando em sua cabeça a afirmação de sua sogra de que não combinava para ele ser pai, que parecia que não é bem assim que as coisas deveriam ser. Talvez não, por que ele não liga muito para nada, ao mesmo tempo que sente tudo que lhe é dito, rapidamente descarta, por que, afinal de contas, de que adiantaria ruminar a respeito de algo que é, se é, é, e nada pode ser feito, todo o resto é merda conceitual filosófica de um senso comum. O que era incômodo de fato era a gritante dúvida constante em si, sobre o que seria da pequena menina diante de uma relação rompida? Passara as primeiras fases de supostas tentativas de separação questionando isso com a esposa, mas agora já estava em outro nível de preocupação. Afinal, seria benéfico de que forma seguir um casamento amargo por uma maior quantidade de anos simplesmente para dizer que se tinha uma família estruturada? Soava tão típico, tão clichê americano de filme. Ambos sabiam que não, era necessário ser um pouco egoísta mesmo. Só restava isso. O que mais podiam fazer afinal? Ele simplesmente tinha medo de estragar qualquer coisa que se passasse dentro da pequenina, sabia ainda que por alto, o quão frágil é o desenvolvimento emocional e psicológico de um ser humano, e queria fazer as coisas da melhor forma possível, com as ferramentas que tinha. Só mesmo no futuro poderia agradecer a ela por ter nascido, e dizer o quanto era grato por tamanha mudança que realizara em sua vida, ainda que inconscientemente. E umedecia os olhos só de pensar como, por mais repetitivo que soasse, era fato que só mesmo quem é pai sabe como é tal experiência. Não importa quantos livros existem sobre o tema, filmes, não importa.

A informação está ali, mas só vai cair como uma luva para quem já tem esse plugin instalado, se você não é pai, você ainda é filho, como dizia aquela maravilhosa música de uma já empoeirada banda nacional de rock, e sendo filho, jamais vai entender a visão de um pai, as prioridades de um pai. Riu-se ao imaginar sua esposa lendo estes pensamentos e dando uma risada grosseira comentando ou ao menos pensando, que,” – Este infeliz mal mudou suas rotinas, fodeu com minha vida uma porção de meses, e ainda acha que de fato teve mudanças de prioridades em relação ao nascimento da filha! Absurdo!” Mas aproveitou o próprio raciocínio terceiro, para emendar uma resposta imaginária, daquelas que jamais dá, que apenas cria pela metade dentro de si, e vez ou outra planeja escrever mas desiste.

” -Como poderei descrever quem eu era, dentro de meu mecanismo de homem, débil, letárgico e comum antes de ter a vida mudada e quem eu sou agora? São nuances tão sutis, fragmentos de personalidades quando observadas de fora, mas pilares existenciais quando vistos de dentro e só eu sei, só eu mesmo, posso dizer que um garoto convulsiona-se dentro de mim para estar apenas tocando o foda-se, fumando maconha sempre que der na telha, ouvindo música bem alto, saindo sem hora pra voltar, fazendo todo tipo de merda juvenil, num clássico conflito existencial de maturidade, que na verdade é muito horrível, por que, quando é que se torna homem se não através de mecanismos externos de força? Seja um filho, seja uma morte, seja uma fome, seja qualquer coisa. O homem é criança e logo, ele é adulto, só que não. Não é. Ele continua criança, fingindo-se, intercalado com fragmentos de maturidade. E essa maturidade é basal, ou quem sabe banal. É um nada diante do que a mulher a capaz, e jamais duvidei de quanto você passou pelo mesmo processo, e aliás, pior, você passou por um processo muito pior! Além de muito nova, você deu à luz a uma criança! Isso é um absurdo!! Como pode algo assim!? Eu sinceramente jamais deixei de respeitar e me surpreender pelo potencial arrebatador existente na fêmea, é algo que merece todo o meu respeito, toda a minha consideração, mas sou tão homem, tão filho da puta, que não vou conseguir imaginar, ou melhor empatizar (sentir) nem um por cento do que de fato se passou com você. Só sei que preciso respeitar, preciso considerar e dizer, parabéns, além de: “sou grato”. Só espero que, não espere, definitivamente que eu possa fazer metade disso, jamais poderei, sou castrado de evolução. E só eu sei, só eu, o quanto dei o meu melhor, e quantas vezes lhe disse que estava dando o melhor, apesar de saber que ridiculamente é tão, tão pouco que nem mesmo pode ser notado. É como você falar de algo metafísico, como falar da depressão quem sabe, pois quem olha de fora, não consegue ver motivos! Por que é que a pessoa está deprimida porra??? Por que o Yoñlu se matou, por exemplo? Ele era rico, era genial, um compositor fora de série, estava no broto da existência, dezesseis anos! Por que alguém assim se mata??? Só mesmo ele saberia te dizer, se ele fosse capaz, ou tivesse coragem de tentar. Mas o que quero dizer é que, só quem vivencia a situação sabe o quanto tenta, o quanto vivo, o quanto faz. E aí entra aquela máxima, jamais julgue alguém, você não poderá saber o que ela sente.


Enquanto dava essa resposta mental à sua esposa, recostou-se de forma mais relaxada no sofá e respirou fundo, os créditos do filme que acabara de terminar de ver sozinho estava terminando de subir. Procurou dentro de si qualquer vontade de chorar, mas não havia nada parecido. Pensou em levantar-se novamente, assim que concluiu o pensamento embotado de uma resposta bastante egoísta, que agradeceu por não ter precisado expor, fez menção de levantar-se mas não concluiu, parou no meio da contração do abdome e olhou novamente para as duas, continuavam estáticas. Fechou os olhos ainda na mesma posição desconfortável e pensou no futuro. Quem seria ele daqui dez anos? Caso ainda estivessem juntos? Talvez as coisas estivessem mais fáceis, a criança estaria maior, escola, outros entretenimentos, mais tempo livre para eles, seja tempo junto ou tempo separado, avós aposentados, os dois trabalhando, uma estabilidade financeira maior. Parece bom, mas como saberia? Como saber se isso poderia realmente se concretizar? Como explicar para seu neo-cortex que o que o cérebro límbico sente na hora do conflito é tão forte, mas tão forte que põe a perder tudo, tudo ao mesmo tempo de forma que, foda-se o futuro próspero, a agonia é tão grande na hora da ofensa que preferia estar morto do que aguentar aquilo, por mais fugaz que seja, e por mais que em poucas horas ela estaria pedindo desculpas, como sempre, prometendo juntamente a ele esforçarem-se para uma nova tentativa de união equilibrada. Mas e se decidissem se separar de fato, sem meias palavras, sem firulas, sem medo. Enfrentariam a dor, o desgaste dobrado, principalmente ela, se virando com a pequena, procurando emprego, exaurindo-se em nome da própria sobrevivência, e, ou entrando então numa nova fase que talvez a transformasse para bem, ou então caindo em uma depressão terrível e amarga que sabe-se lá o que faria (e esse era seu maior medo em terminar com ela), depois feito o estrago, ambos teriam uma guarda compartilhada com a criança, o dinheiro ia ser menor para ambos os lados, iam seguir novos rumos, hora ou outra encontrar novos parceiros e vida que segue, boa ou ruim, cada um teria que descobrir.

Não conseguia ir muito longe nessas fantasias de possibilidades, sua imaginação não era exatamente limitada, mas sim focada no agora, conseguia apenas preocupar-se em arquitetar os próximos cinco passos de seu dia ou quem sabe do mês, mal pensava no fim da faculdade, no futuro de sua profissão, no futuro de sua saúde. As vezes fazia um esforço para imaginar as coisas como serão, seja a respeito de seus pais mortos (e pegava-se sempre culpando-se em segredo, por, em segredo desejar logo que seu pai morra para sua vida ser mais fácil, por que, não é que não gostasse dele ou tivesse qualquer plano secreto para com seus bens, mas simplesmente por que este era um fardo, sempre fora, mas agora era um fardo bastante pesado, e possivelmente, uma parte do problema principal da relação dele com a esposa) e sabia que hora ou outra aconteceria, faria todo o possível para que não, ajudaria como pudesse, sempre se doou para os pais, principalmente para o pai, por que de certa forma, sua mãe sempre foi a figura forte, o braço firme, o mecanismo de propulsão dessa família desmembrada, desse fragmento de família, sempre foi quem existiu ali. E só conseguiu formar essa imagem, compreender o panorama da situação conforme cresceu e percebeu que seu pai era no mínimo alguém com seríssimos problemas cognitivos, com uma debilidade complexa não diagnosticada e uma relação distorcidíssima para com a sociedade. Sente que talvez sua mãe inclusive tenha algum tipo de ciúmes do fato de que cuide tão bem do pai e tão pouco dela, mas ao mesmo tempo ela sabe que ainda pode se virar sozinha, e não haverá hesitação em cuidar dela quando de fato precisar.

Levantou-se então, e passo por passo fez o trajeto até o banheiro enquanto pensava que, talvez pudesse fazer um esforço, e que como um bom adulto egoísta deveria pensar no dinheiro e na estrutura, e que a relação deles não era ruim a ponto do insuportável, na verdade era sim insuportável, mas unicamente e pontualmente nos momentos de desgraça e discussão desordenada, no restante, era apenas um relacionamento básico, sem grandes momentos, apenas alguns bons momentos. Deveriam tentar continuar nesse caminho afinal, por que não? Quantas mulheres amaldiçoadas pelos maridos alcoólatras, espancadas até o limite da sanidade, quantas famílias vivendo do silêncio do estupro e do incesto, da desgraça entre seus membros, e ele reclamando de pequenos momentos de dor e angústia, isso é simplesmente ridículo, é absurdo, é doentio! Vai querer o que? Viver de descarga de dopamina e ocitocina em paixões rápidas? Passam-se os anos, envelhece-se e morre, e viveu para que? De um certo ângulo, talvez de um ângulo muito mais racional, menos esperançoso, menos caloroso, uma visão quase favorável à Schopenhauer, sem expectativas especiais, apenas desejando viver pela vontade de aproveitar a vida, podia-se afirmar que sim, esse relacionamento não só tinha que continuar como deveria continuar! Foda-se os pequenos problemas, são estes pequenos. Nada que um pouco de maturidade e compreensão não resolvessem. Só precisavam se controlar, aprender a interagir, se respeitar. Pensou que muito fácil seria cair num mecanismo de sabotagem (ou seria de desespero em busca da continuidade da multiplicação dos genes?) e simplesmente acreditar no amor novamente, mas não, desta vez não. Estava vendo as coisas com um olhar um pouco diferente. Um pouco…diferente.

Concebia seguir sem uma esperança derradeira, exagerada, sem querer mágicas. Poderiam sim investir num sexo mais sujo e gratificante quando voltassem a ter tempo para isso (quem sabe nas férias, pensou ele), poderiam sair e se embebedar, como estava desejando já faz muito tempo, mas parece que ainda não conseguiu acertar isso com ela, poderiam fazer todo tipo de coisa, mas mesmo todas essas possibilidades, não seriam focadas com um olhar ansioso e esperançoso, queria mesmo é só estar ali casado, quem sabe. Só ter esse porto seguro, cuidar bem da esposa e da filha, comprar livros e bens materiais, quem sabe investir mais em alguma coisa útil, ou não, já que foi por uma indecisão a respeito de uma possível compra de um terreno e casa que aconteceu a última grande dúvida de separação. E quando se lembrou da casa, novamente teve um tropeço no próprio raciocínio…

O que seria então? Conseguiriam? Valeria a pena tentar? Esperar seria melhor, por hora sem investimentos, sem esperanças, só vivendo, mas não como num calvário, no limbo, no purgatório, à espera da solução definitiva (que jamais existiu e existirá, sabe bem), mas como numa fila de banco confortável, com cadeira, senha de atendimento, um bom livro na mão para passar o tempo e uma barra de chocolate para comer quando der na telha. Era afinal esse um pensamento egoísta. Era? Não conseguia decidir-se sobre como interpretava essa visão quase niilista ao revés que vinha assumindo nos últimos meses, mas ainda assim, norteava-se pelo conforto interno. Sabia que, por mais que esse tipo de materialismo pessimista não soasse bonito e equilibrado comparado à sua anterior visão de mundo, muito metafísica e ingênua, sentia que estava bem, que estava onde deveria estar. Pelo menos em termos de filosofia de vida, mas certamente não tinha certeza de nada a respeito dessa relação.

Seguiu até o banheiro para desanuviar os pensamentos pesados e confusos, e em meio a penumbra do corredor tateou a porta ainda se acostumando com a baixíssima luz ambiente, e ao acender a luz branca e fria do banheiro teve aquele horrível choque visual onde franzimos as sobrancelhas e apertamos a pálpebra com estresse até a vista se acostumar com tamanha violência. Encostou a porta e percebeu que não tinha na verdade motivos para estar ali, porém aproveitou para se observar no espelho, as vezes fazia essa mórbida atividade, apenas observar-se, e como num exercício de livre associação psicanalítica, mas baseada em pensamentos espontâneos e fragmentos inconscientes deixava vir, o que viesse. Percebeu suas olheiras tom violeta começando a aparecer, talvez pelas últimas noites mal dormidas, percebeu o rosto quadrado, beirando trinta anos de idade, uma barba bastante tediosa, já manjada, o olhar pequeno, olhos pequenos, escondidos na face, olhos tristes, certamente tinha uma feição triste, não tão triste como daquele grande ator, mas era triste, suas sobrancelhas faziam o desenho da melancolia. Sua boca era reta, e de certa forma também muito pequena, seu rosto quando visto em itens separados era bastante bisonho, principalmente quando focava no nariz, mas não se deixou cair nesse tipo de autocomiseração e logo lembrou-se da postura. A maldita postura.

Sua coluna tem sido tema de vida nos últimos dez anos no mínimo, numa luta constante, como num yin e yang constante, como um ser com memória frágil e temporária, vive em um conflito entre o “lembrar de corrigir a postura” e o “esquecer”. Percebe-se horrível na frente do espelho, quando sua postura grotesca causada pela doença de Scheuermann lhe dá naturalmente uma acentuação no par de seios masculinos e faz sua barriga desenhar um espaço suficiente para acomodar um bebê de 5 meses. E ao corrigir o máximo que pode a retidão, percebe que os seios tomam espaço e foco muito maior e que, ou será sempre visto como alguém que estimula demais o peitoral, ou um homem com peitinhos. Sente uma tristeza tão sincera ao observar sua barriga, constante barriga, que mesmo nos últimos tempos, diante de esforços sinceros para seu extermínio, simplesmente se nega a trabalhar a seu favor. Cansou-se de indignar-se com um metabolismo tão ridículo quanto o seu, ou seja, uma pré-resistência à insulina, ou seja, a merda que for. Está tão cansado de tudo isso que acaba por manter-se nesse porto seguro de autos sabotagem que sempre esteve, onde por hora não quer pensar em saúde e responsabilidades, satisfaz-se de apenas se alimentar um pouco para não pensar. Tais exercícios de auto-observação visual duram pouco exatamente pelo impacto negativo que sempre acarretam. De modo que, logo abandonava o recinto úmido, gelado, cheirando a urina de seu pai e seguia em busca de algum outro local mais agradável para fixar sua atenção pelos próximos minutos, enquanto não conseguia sentir-se bem consigo próprio em meio a este vórtice emocional que ia e vinha, como uma onda de ayahuasca que passa e volta quando você não está preparado.

Ao caminhar em direção à cozinha acaba por resolver tomar uma atitude inusitada, e sai. Sai de casa. Sente uma certa adrenalina por ser furtivo e babaca ao mesmo tempo. Desejou que o barulho do portão não acordasse ela. Não acordou. Então seguiu lentamente, em passos curtos de um convalescente (e era assim que sentia quase sempre, pelo menos uma vez por mês, quase como uma versão masculina da menstruação e todas as suas dores), cada músculo lhe doía. Considerou que talvez não fosse possível uma sinusite ainda que forte lhe causar tantas dores, poderia ser dengue? Poderia ser alguma doença degenerativa? Ironicamente não pensou no câncer, talvez pela primeira vez, por que parecia difícil câncer causar dor nas juntas de todo o corpo. Ou talvez fosse apenas o medicamento psiquiátrico agindo, afinal, foi uma das grandes queixas feitas ao psiquiátra: A constante certeza de que tem ou iria ter em breve alguma doença fatal (vulgo câncer). Mas o duelo com esse mono pensamento era no mínimo uma de suas características mais claras e secretas. Se pudessem abrir seu ser e catalogar todo seu comportamento, encontrariam um espaço grande e articulado para se auto assustar, um sistema inteligente e prático de acusamentos ilusórios e hipocondríacos com ênfase na hipótese cancerígena.

Em poucos minutos percebeu-se chegando ao Ginásio de Esportes que ficava próximo a sua casa. O que exatamente iria fazer ali? Como chegara até ali? Em meio a tantos devaneios e ensimesmamentos não se percebera traçar o trajeto. Como era quando estava nesse nível de interiorização? Parecia alguém normal, se visto de fora? Não saberia. Sentiu-se um pouco como Raskolnikov em seus mergulhos obscuros, mas não em teor de drama. Inclusive estourava em violentos diálogos internos furiosos consigo mesmo, xingava-se, diminuía-se, com certa frequência, como uma tentativa urgente para calar a própria baboseira sabotadora e negativista que o habitava.
Por mais existencialista que estivesse sendo sua visão de mundo atual, jamais aceitava qualquer tipo de percepção dramática negativa forçada. Sempre achara ridícula aquela postura infantil, muito comum em alguns amigos seus e até mesmo em sua mãe de mostrar-se ao outro como um coitado que já aceitou que nada da vida dá certo, e que não adianta mesmo, por mais boas atitudes que se faça, as coisas são como são. De uma certa forma, para ele, nessa atual visão de mundo (atual, por que a pouco tempo rezaria para os arcanjos africanos da fogueira da paz com os pajés da nova era), era muito claro que, indiferente das coisas serem pesadas, sofridas e complexas, isso nada tem a ver com ser bom ou ruim. É apenas o mundo. O mundo não foi feito para ele, para ninguém, o mundo aí está. Por acaso pode ser que você consiga se esforçar e as coisas deem certo. É quase cientificamente provado que, quando fazemos as coisas de verdade, fazendo, com lucidez e dedicação, o mundo anda, as coisas se encaixam. Não tem muito a ver com sorte, signos, anjos ou demônios. E sempre foi tão complicado essa questão para ele. Evitava como podia qualquer discussão a respeito, por achar que sua opinião poderia (e pode) zoar com a realidade alheia. É muito passível de culpa e de receios.

Ao sentar-se no primeiro banco que encontrou observou que as luzes amareladas de mercúrio davam um tom lúgubre à aquela praça, e que de certa forma, era isso que agradava a ele. As poucas outras praças de sua cidade passaram por um processo de reforma elétrica, e enormes postes de luz branca deram um ar asséptico e nada confessional aos ambientes. Um vento suave, sóbrio e um tanto apreensivo soprava e fazia os finos ciprestes que contornavam a pista de corrida dançarem. Havia um silêncio agradável em toda sua volta, como se uma cúpula envolvesse todo aquele cenário, observou que na rua lateral, trezentos metros dali alguns carros trafegavam, distraídos em seus próprios rumos, e uma ou outra pessoa aparecia na rua de frente para seu banco, há mais ou menos quatrocentos metros de distância. Olhava embriagado pelo silêncio para a composição desse quadro, a tom amarelo iodo das luzes, os ciprestes balançando, o soprar do vento como único protagonista sonoro, e enfim, o céu. Não havia lembrado de olhar para o céu, e quando percebeu que não havia lembrado, lembrou de uma situação específica sobre isso. Quando há mais de dez anos estava em seu quintal (um dos vários quintais que teve), na casa que lhe abrigou por mais de seis anos, quase um recorde, dado a quantidade de mudanças que já fizera. E neste dia virava a terra com uma cortadeira, para fazer uma horta, talvez a primeira horta, ainda um protótipo, nessa fase em que transbordava idealismos e planos, mas nenhuma ou pouquíssima habilidade ou maturidade para fazer qualquer plano dar certo realmente. Não desistia fácil, nunca desistiu, a pesar de uma visão contrária, ou melhor, um julgamento contrário de sua mãe e de sua esposa, de que supostamente desistia das coisas com demasiada facilidade, o que, quando soube, pôs-se a fazer uma grave recapitulação de sua vida e não conseguiu compreender quais foram as tantas coisas que desistira. Talvez se lembra apenas da Psicologia, mas esta, ele ainda hoje afirmava não ter desistido completamente, apenas desanimou-se diante de inúmeros bloqueios pessoais e inconsistências regimentares do sistema educacional proposto pela faculdade que se aventurou, mas no mais, sempre fora dedicado a tudo, e naturalmente que tinha uma incessante busca, acima de tudo era um buscador. Cada vez que achava um caminho melhor, largava mão do que não servia mais, e isso sim, era constante, mas só mesmo se observado de um ângulo muito baixo, muito ingênuo e abstrato para ser considerado um abandono por labilidade ou falta de foco específica.

Quando começara então a revolver a terra, um amigo chegou, este amigo em especial fora uma pessoa de grande importância na construção de sua personalidade. Mas neste momento da vida, havia tornado-se outra. Há menos de uma semana tornara-se adventista do sétimo dia, e isso praticamente desconstruiu sua personalidade. Nunca julgou de fato se isso fora bom ou ruim para este amigo, por que pelo contrário, quem sabe estaria afundado na cocaína ou coisa parecida, sentia-se perdido, sem dúvidas, para ser tocado de forma tão forte e arrebatadora pela religião que se descortinou em sua frente, estava provavelmente num estado péssimo emocional. Este amigo então precisou recusar-se a ajuda-lo revolver a terra, isso já com a cortadeira na mão, pois lembrou-se de súbito, que na visão adventista, Deus fizera o sábado para o descanso, foi o dia que este descansou quando terminou a construção do mundo (ou seria do universo?). Mas tirando esta cena um tanto quanto bizarra que marcou sua memória, lembra que no mesmo dia, seu amigo, ali mesmo no quintal, enquanto conversavam, observou longamente o imenso pinus que se erguia no meio do terreno, árvore esta que era quase uma companheira, que em tantos momentos fez-se importante na sua juventude. E enquanto observava as acículas contrastando com o céu azul imenso, sem nuvens, comenta que estamos tão acostumados a só conseguir olhar para frente, para frente, para frente, no ângulo da nossa altura e de nossa postura, que esquecemos de observar o céu, de olhar para cima. De certa forma aquilo soou muito verdadeiro e fez sentido ainda que este amigo estivesse de forma indireta tentando preencher uma frase parabolar com um sentido religioso, não deixou que qualquer interpretação estragasse esta lembrança, e agora, ali no ginásio, sentado em um frio banco, banhado por luz de mercúrio e ouvindo o sério sopro do vento, lembrou-se das palavras, no exato momento que lembrou-se de observar o céu.

E mesmo com aquela espécie de halo de luz turva e espessa que envolve as cidades e atrapalham a percepção das estrelas num céu noturno, pode perceber, nesta noite sem lua, como estava recheado de estrelas aquele pequeno espaço que conseguia observar. Sentiu um ímpeto de sair dali, de ir procurar um lugar ermo, realmente deserto e sem qualquer tipo de luminosidade urbana. Naturalmente pensou na estrada da fazenda. Era praticamente automático a percepção da estrada da fazenda ser uma espécie de rota de fuga, uma espécie de porto seguro, uma espécie de isolante emocional, uma espécie de espaço fora do tempo. Poderia escrever um livro sobre essa estrada, poderia passar a noite divagando a respeito dela. Poderia iniciar a divagação lembrando-se do dia em que resolveu finalmente sair sem pretextos específicos com sua atual esposa, quando esta era ainda uma menina de dezesseis anos. Recusara uma porção de convites e sentia-se mal por isso, mas na época, estava confuso, amargurado, machucado. Houveram situações tristes e difíceis em seu coração, sempre sofrera do coração, era demasiado emocional. Quando enfim sentiu que não havia mais motivo para tanta tortura e amargura, resolveu experimentar a vida, e como um homem, propôs a esta garota, que saíssem enfim, que fossem aos “pinus”, um ponto chave da estrada da fazenda, local este que se tornou praticamente um ponto de referência, um “point da galera descolada”, uma quase banalidade, na verdade. Mas na época ainda não era assim, eram poucos que ali frequentavam. Era um dia muito frio, muito vento, encontraram-se pelo caminho e seguiram de bicicleta para os pinus, coisa de aproximadamente sete quilômetros. Para ele era um percurso leve, estava acostumado na época a fazer longas trilhas, caminhos difíceis e tortuosos, amava isso, tanto a pé quando de bicicleta, mas chegou a preocupar-se se não era demais para ela, que inclusive estava com uma bicicleta emprestada, com um banco extremamente duro, e só dias depois lhe veio na cabeça que o mínimo que deveria ter feito, era deixado ela ir com a bicicleta boa que estava usando e ele fosse então com o banco duro. No caminho preocupou-se com o fato de que praticamente não havia diálogo, não conseguiam manter um assunto com muito tempo, parecia que não era da natureza dela falar, observava-a com aquele longo cabelo vermelho, cortado de uma forma linda onde fios mais longos desciam pelas laterais do rosto até os ombros e a parte de trás era mais curta, dando um estilo de corte japonês, como aquelas lindas e cativantes garotas de alguns animês que já havia assistido, mesmo que apenas de relance. Era uma criatura fascinante, mas nem mesmo o diálogo se desenvolvia. Lembrou-se de outro amigo então, um amigo silencioso, mas este, por sua vez tinha o silêncio como natureza. Os dois faziam longas trilhas com menos de dez palavras. Não havia desconforto, exatamente por se tratar de uma pessoa naturalmente silenciosa. Neste caso, não sabia até que ponto ela estava apenas com vergonha, ou se de fato era alguém de poucas palavras. Mas ainda assim sentia-se a vontade com ela. E quando lá chegaram, sentaram-se no chão forrado de acículas secas dos pinus, encostaram-se no mesmo tronco, lado a lado e conversaram, infelizmente sua memória fragmentada, ainda que repleta de texturas, sons, cores e cheiros, momentos e sonhos, não guardou que tipo de diálogo se desenrolou ali. O que conseguiu lembrar claramente era do momento onde ela mostrou-lhe os dedos rosa-azulados de frio, longos dedos, de uma mão tão delicada e macia e ele, naturalmente pegou sua mão e fechou-a entre as suas, e esfregou buscando esquenta-la. Havia uma urgência de algo ali. Ele desejava ter encontrado um momento para se beijarem, seria precipitado? Talvez. Não torturou-se por isso, já que no dia seguinte efetivaria tal plano, ainda que de uma forma inesperada. Mas acima de tudo aquele passeio específico serviu para criar o vínculo, para aprender a figura, para compreende-la e deseja-la. Antes disso saíra apenas uma vez com ela para um breve passeio na biblioteca, muito tempo antes, quando ela tinha ainda quinze anos.

Enquanto divagava e rememorava tais episódios que vinham em turbilhão em sua mente, não se percebeu já caminhando, em direção à uma rua próxima, a rua Guilherme Kantor, extremamente percorrida por ele, talvez tivesse dado a volta ao mundo, só indo e voltando naquela rua. Em diferentes momentos da vida. A princípio a rua se materializou quando conheceu Juliano, e adquiriu um novo hábito, ir em sua casa. Na verdade, o motivo propulsor para ele passar a frequentar a casa de Juliano foi sua primeira namorada e esposa, Edna. Quando se tornaram amigos na escola, em plena sétima série, ela, e não ele, o convidou para irem a casa de Juliano, naquela mesma noite para fazer sabe-se lá o que, E ainda era uma criança, não mais do que ele era, mas certamente era outra pessoa também, quando comparada a quem se tornou com o passar do tempo em que viveram juntos. E fascinou-o desde o momento inicial em que a vira, há um ano antes, quando esta, sentada numa escada do colégio, com uma camisa do Linking Park desenhava uma mão imensa movimentando um alien fantoche. Sentou-se ao seu lado num impulso que não contabilizou e puxou algum tipo de assunto a respeito do desenho e Edna respondeu: “que no final das contas, todos éramos fantoches, de certa forma”. O que era uma clássica resposta de Edna aos 14, naturalmente, depressiva e furioso de alguma forma, mal imaginava ele que tipo de criatura era esta garota, e o mar de emoções complexas que se abrigavam dentro dela. Aquele dia o marcou, mas no dia seguinte ela desapareceu, e só mesmo um ano depois, quando voltou a estudar ali, acabaram fazendo contato por intermédio de Juliano.
Dali para frente iniciou sua peregrinação pela rua “GK”, diariamente, após a aula ia ver Juliano com uma real expectativa de na verdade, ver Edna. As vezes Edna não aparecia e pouco a pouco ele e Juliano firmaram uma amizade tão grande, mas tão grande, que só mesmo um capítulo próprio pode fazer juz. Depois dessa fase inicial, começaram então a frequentar a casa de Edna. E foi lá, depois de uma partida de vólei, durante um momento aleatório, onde caído no piso pingando suor e exausto observou ela de uma forma diferente. E naquele exato momento, considerou que poderia estar gostando dela, o que rapidamente desencadeou um estado de paixão intensa e dolorosa, que levou muito, muito tempo para transformar-se em um beijo.

Andou tão lentamente, pisando pedra por pedra, como quem medisse o caminho com os pés, ou esperasse as formigas passarem para não pisá-las enquanto recapitulava a história desta rua, ou apenas parte dela, e demorou-se quando pensou na paixão por Edna, que foi completamente diferente da construção de sua paixão e de seu amor por sua atual esposa. Durante um tempo sentia-se de certa forma culpado por não ter passado por uma fase inicial de paixão avassaladora (daquelas que tira a fome), mas sabia que a adultidade e a realidade de uma vida menos utópica não lhe trariam sempre paixões românticas e floreadas, Edna fora sua primeira paixão, naturalmente tinha uma carga emocional diferente. Mas automaticamente lembrou-se do momento chave que também despertou a paixão em sua atual esposa, e foi precisamente quando dançavam com as luzes apagadas, na sala de casa, uma música do Sigur Ros, e ela comenta com um sofrimento no coração, que não compreende como pode existir uma música assim, e que ela gostaria que aquilo durasse para sempre. Naquele momento, preenchida por uma máxima do eterno retorno de Nietzsche, percebeu que encontrara uma pessoa para preencher seu coração, e que não se tratava apenas de uma mulher, mas sim de alguém que transbordava delicadeza e um universo peculiar, particular, único e incrível que, pouco a pouco iria se revelar para ele. Ao rememorar aqueles dias, os dias de aventura, a primavera da alma, não conseguiu não pensar no quanto tudo havia mudado, mudado drasticamente, sendo que em sua mente, drástico não quer dizer ruim, quer dizer de forma extremamente complexa, como uma mudança de trezentos e sessenta graus. Estava vivo, estava bem, ainda que vagando noite a fora em busca de qualquer resposta inexata. Mas não era mais o mesmo. E quem era? E de onde vem essa falsa esperança clichê de desejar ser o mesmo, do saudosismo, de considerar o antes melhor? Sempre disse quase panfletáriamente que nunca foi realmente nostálgico, que não conseguia entender as pessoas que ficam desejando reviver o passado. Mas não era verdade, era apenas uma máscara. Uma de suas máscaras.

Ele gostava de se imaginar presente e atuante no presente, mas volta e meia pegava-se escrevendo sobre seu passado, sua história e suas lembranças. Poderia acessar num piscar de olhos as longas caminhadas que fazia com Albert, seu amigo de infância em direção ao clube de natação, enquanto caminhavam no sol a pino das treze horas, conversando sobre Pink Floyd (antes de conhecerem Pink Floyd), sentindo o noduloso cheiro de xisto e enxofre da Petrobrás que envolvia aquela rodovia inacabada. Ou sua primeira noite de sexo, onde conseguiu convencer sua mãe para que sua namorada dormisse com ele, pois haviam ido num show tarde da noite, que não puderam entrar por serem de menor, choveu tempestuosamente na volta e acabaram virando a noite em experiências sexuais iniciantes, tímidas, mas ainda assim, intensas. Também não esquecia o olhar quase humano, ou mais que humano, de sua cachorra, a segunda, a melhor que já teve, acima de qualquer suspeita. Foi uma companheira, que vivenciou de tudo e das melhores formas possíveis com ele, em todo tipo de trilha, rio, lago, passeio, e acabou morrendo de diabetes, quase por inanição, se não tivesse tomado uma injeção letal. Como aquilo lhe doía. E lembrar de animais queridos lhe botava em um quadro de amargura, pois guardava ainda na lembrança outra gata que tiveram, já com sua atual esposa, quando moravam na área rural, em uma pequena chácara, a gatinha era cega, e certa vez simplesmente não conseguiu voltar para casa, procuraram como puderam, mas não encontraram, no meio de todo aquele mato era difícil imaginar onde ela poderia estar. Até que talvez um mês depois, encontraram-na, presa numa casa vazia, da chácara vizinha, magríssima, fraquíssima. Aquilo foi tão chocante para ele, que simplesmente criou uma ferida em sua alma, uma ferida que pode ser apenas deixada de lado, mas não cicatriza corretamente, pois cada lembrança deixava claro uma porcentagem de culpa, seja ela real ou imaginária.

Esforçou-se para transformar em fumaça aquela lembrança, pois não desejava afogar-se em lembranças tristes. Parou, deu meia volta, observou a fileira de luzes dos postes fazendo uma espécie de cordão de luz nas ondas de subidas e descidas da rua. Aonde dava mesmo aquela rua? Estava tão distraído que não conseguiu atinar no momento, mas logo lembrou-se. Acabava no rio, de maneira brusca e quase trágica. E se fosse até lá agora? Fazia muito tempo que não ia até a beira do rio, especificamente nesta beira de rio, que, só é frequentada por pescadores ou por maconheiros. Seria estúpido continuar nesse rumo desnorteado, nessa brincadeira adolescente de andar, cego de qualquer preocupação, será mesmo que estava despreocupado. Ao analisar-se sarcasticamente percebeu que não, que alguém ali dentro sabia que ele não estava de fato tranquilo, e que apenas dava mais ênfase ao pequeno personagem rebelde e isento de emoções primarias e importantes nessa sua fase da vida. A empatia desaparecia de uma forma muito clara quando entrava nestes pequenos estados de torpor emocional, poderia se desligar completamente de qualquer relação com sua família, seus problemas pessoais, seus medos e desejos. Por hora ele era apenas um andarilho. Ia para o rio ou voltava para casa e enfrentava o vácuo, o vazio e o nada? Já que naturalmente, sua esposa já dormia quando saíra, agora então estaria ou mais dormindo ainda, na cama, ou na mesma situação, só variando o ângulo, já que a criança acorda de quinze em quinze querendo um aconchego ou uma teta. Ele queria realmente discutir relação, até por que fazia isso com gosto, e sempre, mais discutia a relação do que a vivenciava de fato, mas agora, naquele momento não iria adiantar.

A esposa ligaria ao perceber que saíra. Ou não? Talvez não, já que estava com certo rancor, pelo menos assim foi dormir. Não, com um certo rancor, não. Mais precisamente com um amargo na boca, como alguém que precisa dormir ao lado de um problema muito sério. Nada pode fazer, não há solução, então dorme, esqueça forçadamente que existe um puta dum problema ao seu lado. Só resta a cara triste e cansada de olheiras profundas e desgosto escorrido por entre os fios de cabelo e dos pesos dos braços. Ela não ligará, não irá procurar. Quem sabe, se pudesse (e se vivesse nesse estado de amargor causado pela relação débil) ela nunca mais o procuraria e iria criar a criança por conta, junto com sua família. Mas não também. Ela o procurará. Mais provavelmente se acordasse no meio da noite e percebesse que ainda não chegou. Ele não esperaria tanto, melhor não arriscar. E então, decidiu que, sendo ainda onze e meia, ele iria prolongar mais um pouco seu caminho, e depois vê o que acontece. Mas iria até a beira do rio? Para que? Receava muito, muito, hoje em dia. Evitava qualquer situação de risco, mesmo que banal. Era a idade? Provavelmente. Já não consegue imaginar-se alterando a consciência com qualquer substância psicoativa que esteja num patamar mais alto que a recreação suave de um baseado, por exemplo. Evitava conflitos, confrontos, acidentes, evitava utilizar o corpo de forma irresponsável e irregular, evitava locais perigosos, não tinha mais coragem, não que realmente já tenha sido alguém corajoso. Mas lembra-se bem dos anos de coragem, como quando, solteiro, aventureiro e estúpido, andava de peito estufado pelas praças de Curitiba sem medo algum, mesmo em meio a corjas de seres abstratos de alguma vila com nome católico, onde o índice de mortalidade é muito grande para ser divulgado, ou quando jogava-se ao léu com seu gordo e feio corpo entre moitas, arbustos ou cacos de tijolo para filmar alguma cena criativa de suas imitações de jackass junto a seus amigos jovens e despreocupados. Se soubessem. Se soubessem naquela época o que é a vida, e para onde ela vai.

Não havia motivo algum em ir até uma beira de rio sem iluminação naquela fase de sua vida. Resolveu então que iria dar uma longa volta pelo centro da cidade até encontrar a rua de sua casa, no alto da avenida. Aquele passeio languido e silencioso (por fora) faria bem ao seu estado de espírito, e quem sabe até tivesse alguma lucidez mágica que lhe facilitasse os planos de o que deveria de fato fazer com sua vida e a vida de todos ao seu redor. A rua que subia agora era uma rua antiga, já muito vista em fotos da cidade, principalmente por que, mesmo sendo uma subida alta, foi ali que a água da enchente de oitenta e três chegou, muitos iam visitar a beira da água, e observar o horizonte submerso, com todas as suas inúmeras situações e histórias. Não gostava desta rua, ela tinha um ar de passado claustrofóbico, uma sensação de angustia cravejada no meio daquelas pedras, ou no reboco setentista das paredes de algumas das antigas casas laterais. O primeiro cruzamento que passou, lhe trouxe um novo vórtice de lembranças, em geral envolvendo uma grande amiga sua, a casa dela logo ali, era como um ponto de referência, um item de um grande catálogo, ou índice, e quando acessada, abria um repertório vasto de lembranças, boas e ruins. E aleatoriamente, a primeira que veio, foi quando esta, ansiosa e eufórica, nem mesmo conseguia finalizar os exercícios na academia (que faziam junto) por que precisava saber se fora aprovada para a bolsa de doutorado em outra cidade. Apesar de grande desejo, não guardava muitas expectativas, e quando enfim chegara com ela em sua casa e esta por sua vez conferira que não havia passado de fato, virou-se e encolhida como um pequeno animal triste, ou uma criança de uma idade complicada (velha demais para chorar no colo, mas nova demais para não procurar um colo para chorar) abraçou-se nele para chorar. Ele nada podia fazer a não ser passar a mão em suas costas e consolá-la, junto com sua mãe que ouvira a conversa e o choro e aparecera ali para conforta-la. Essa cena pouco dizia sobre a personalidade desta amiga, mas tamanha era sua afinidade com ela, ainda que repleta de diferenças e discordâncias, que, ao invés de fragmentar seu devaneio em episódios específicos a respeito dela, começou a contemplar o mapa caótico de possibilidades, de fatos, de acontecimentos.

Como é que pode ter encontrado figuras tão icônicas e peculiares mesmo em uma cidade tão pequena e bizarra quanto São Mateus do Sul? Há um tempo atrás contentava-se com uma visão adquirida inclusive de sua esposa, que alegava que: -Supor que existem pessoas melhores e mais especiais (por exemplo, por que esta escuta Death in June ou Walter Franco) é um típico julgamento egocêntrico social e grupal, e que não faz sentido algum. Porém, já abandonara essa visão, pois convivera com muitas pessoas de fato normais, pessoas que colocam música ao vivo no toque de chamada celular, e quando alguém liga é apenas aquele grito/silvo/chiado-branco da plateia e mal se percebe o primeiro riff sertanejo universitário e, fim de experiência. Convivia com pessoas que comem bastante margarina e que acreditam em quebranto, pessoas que levam a televisão a sério, pessoas que jamais leram um livro e nem pretendem ler, pois já se consideram velhas demais para começar, pessoas que apenas tomam chimarrão e isso é tudo, pessoas que não tem ou não tiveram ambições, e naturalmente, acabaram por não ter muita coisa para contar, ou melhor, contam muito, falam muito mais do que os que tem coisas para contar. São pessoas que como diria Manoel de Barros: “— eu não aceito. Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. Etc.”

Ele gostava de acreditar sim, que existe pessoas especiais, e aprendera a pouco tempo que não havia motivos para envergonhar-se em considerar-se de alguma forma especial. Principalmente por que só ele poderia fazer isso, só ele valorizaria seu trabalho, realmente. “Que trabalho?” Diriam os que veem a uva. E ele com aquele maldito sorriso de canto de boca, como quem suspira triste por saber que não saberá explicar que tipo de trabalho ele quer dizer. Mas tem a resposta pronta em seu neocortex, e talvez ele poderia resumir estes trabalhos com fragmentos imagísticos, tais como um livro, uma música, um sinal, uma permanência na beira de um córrego de água fresca em uma tarde de primavera gelada, uma contemplação dos contornos de uma árvore imensa, manchada em seu tronco pelo barro da última enchente, uma observação, uma simples observação de uma moça passando na rua, despreocupada, mas ao mesmo tempo única, capaz de rasgar o espaço tempo com sua beleza única, como toda beleza única de todas as mulheres, que serão sempre sua paixão maior. As mulheres, como podem ser tão lindas? Uma melodia bem construída de guitarra em cima de uma base saborosa de baixo, durante um ensaio bem-sucedido de sua banda, onde enfim, vê uma concretização do que considera o mais próximo da materialização de um trabalho. De um serviço. Servir, servir o mundo com o que ele acredita. Existem os médicos e os que acreditam na medicina, são estes que nos mantém vivos, vivos o suficiente para que possamos nos ocupar de outras coisas que não seja se manter vivo. Aí podem existir os que vivem de outra coisa. Como amava saber que existem pessoas que amam as coisas que ele não é capaz. Os médicos, os dentistas, os cientistas, os marceneiros, os pintores, os pornógrafos, os diretores, os motoristas de ônibus, os arquitetos, tudo, tudo! Parabéns e obrigado!

Mas ele mesmo só gostava da divagação, das artes mal vistas pelos artistas, das banalidades efêmeras. Ele gostava é de ouvir música e pensar em música, discutir literatura, assistir filme, produzir filme, escrever sem parar, parar de escrever e começar novamente, compor qualquer tipo de delírio musical, brincar de compor espontaneamente. Gostava é desse tipo de coisa. E tal como ele, acreditava que existiam grandes outras pérolas em meio ao mar de pessoas abstratas e cenográficas. Mas que absurdo pensava? Como pode se contradizer de forma tão intensa? É claro que não acreditava exatamente nisso! É claro que não! Quantas vezes presenciara a realidade visceral e incrível, devastadora da realidade alheia, o conteúdo riquíssimo existente na existência de outrem, quantas vezes contemplara a sobriedade profunda e complexa de um senhor simples do interior, a mente expansiva e absurda de uma criança qualquer, como poderia levar a sério o solipsismo quando via tamanha veracidade em cada fragmento de existência presente do lado de fora de seus olhos? Não! Cada um tem seus sabores e devaneios, cada qual sabe de suas dores e paixões, e cada qual tem sua história e importância! Mas tamanha é essa lógica, que naturalmente alguns nos atraem tão perfeitamente, a ponto de que observamos com um farol maior, sem tanta neblina pela frente, as nuances e detalhes destas existências. E aprendemos a gostar, a amar e até opinar em reclamações e sugestões, esta pessoa. Ainda assim, mantinha-se firme na lógica de que a democracia inicia sua falha ao considerar todos iguais. Iguais jamais. E jamais (por enquanto) iria conseguir considerar todos iguais. O que acontece de fato é que, via com clareza, o fato de que todos deveriam ter as mesmas oportunidades e facilidades, mas o desenvolvimento pessoal e social de cada um é que iria mostrar seu rumo. Sabe que se fosse assim, continuaríamos vendo assassinatos, estupros, analfabetos e idiotas por todo lado. Por que não é só a oportunidade que faz o homem.

Lembrou-se de quando mais cedo sofrera em silêncio em mais um de seus momentos eternizados de fragilidade emocional virtual. Apenas vagava pela rede social e viu uma imagem que havia sido compartilhada por uma conhecida qualquer. Na imagem uma mulher loira dava de beber em uma garrafa plástica um bebê africano, com talvez um ano e meio ou dois, mas que ali, em pé completamente desnutrido e flagelado pelo peso da existência parecia um pequenino homem, que tanto já vira no mundo, ávido de sede, recebendo sem expressão ou movimento corporal algum, aquela água na boca, em um cenário desolado, árido e fatal. Na mesma postagem havia uma foto ao lado, com a mesma senhora e a mesma criança, agora em seu colo. Já gordinha, maior e sorrindo. Ao que dava entender que aquela senhora adotara a criança. Indiferente da corrupção da realidade que esse tipo de postagem costuma acompanhar, sentiu aquele amargo arrepio, aquele aperto no peito, uma aflição que vem embalada em compaixão, empatia e tristeza. Esse tipo de cena, assim como o documentário de Sebastião Salgado, ou o filme Samsara, ou mesmo Humanos, todos grandes documentários, tem o potencial de abalar ele mais do que muita coisa. Assim como uma cena marcada em sua memória, de quando em meio ao tumulto de Curitiba, vagava pelo centro procurando a rua correta para voltar para a clínica onde seu pai estava internado fazendo uma cirurgia de descolamento de retina e numa das esquinas percebe duas senhoras, uma trocava a fralda de uma criança, enquanto a outra visivelmente inconsolada vociferava ao léu a respeito da dificuldade do momento, e no meio da multidão de formigas transeuntes, o olhar dessa senhora cruzou diretamente com o dele, e olhando em seus olhos disse: “-Moço, me ajuda! Por favor?” E ele, num ato mecânico, talvez por instinto ou receio, fez uma cara de “lamento muito” e deu com as mãos no ar como quem diz: “-não posso fazer nada”. Sem ao menos parar para perguntar o que essa mulher precisava. Será mesmo que não poderia ter ajudado? Será que não? Ele poderia sem dúvidas ter ajudado ela, ele sabe disso. Todo o caminho de volta foi remoído e mastigado com dor e fúria. Certamente ele arquivara esta memória no arquivo para todos os grandes erros que cometera. A até um tempo atrás quem diria, ele jurava que não se arrependia de nada. Não consegue acreditar como fora cego e estúpido em sublimar e introjetar tantas coisas. Mas certamente, o grito de indignação daquela senhora quando já havia saído de seu foco de visão, urrando: “-Meu Deus! Por que ninguém me ajuda?” Não deixa dúvida quanto ao fato de que ele foi responsável por algum tempo em fazer outra pessoa sofrer, ou ao menos, por auxiliar em seu calvário.

Sua mente entrava e saia destas atribuladas percepções de passado e presente, cada quadra que andava formava novas conexões em suas lembranças imediatas. Ouvia o som esfumaçado e opaco dos caminhões passando na rodovia a alguns metros de onde se encontrava. O cansaço repentino e a falta de ar lhe trouxeram à tona a noção de quão sedentário estava, e coincidentemente encontrava-se na esquina da academia que frequentou por pelo menos um ano. A rajada nostálgica e amarga lhe bateu no peito ao pensar em quanto já fora dedicado e sincero em relação aos desejos de um bom funcionamento do corpo e da saúde. Começou a academia praticamente quando terminou seu primeiro relacionamento. Mastigava a dor do peito fazendo força naquelas malditas máquinas sem vida, tão cheias de esmero, cada levantada de peso era uma tentativa gritante de construir sua autoestima praticamente pulverizada depois da implacável notícia de que sua esposa de oito anos de casamento estava apaixonada por outra pessoa, e, só teve coragem enfim de contar para ele no meio de uma palestra do centro espírita que nunca frequentava junto a ele, raramente tinha interesse nesses temas, e talvez naquele dia decidira ir só para amenizar a situação, era a “deixa” para contar-lhe. Ele só ficaria quieto mesmo, não ia armar nenhum barraco. E talvez na hora ele tenha apenas sorrido com complacência, com uma incompreensão titubeante, por que não era a primeira vez que experimentava alguma outra coisa, e ele também já havia sentido algum formigamento de amor por outra amiga de ambos. Mas quando ela lhe disse, em meio aos melosos relatos espiritualistas que não fediam e nem cheiravam, que aquela paixão era séria, e que ela achava melhor que eles terminassem. Aquilo congelou o tempo, congelou a sua garganta, e dali para frente, por alguns meses pelo menos, ele era só dor.

Não haviam muitas memórias claras sobre o processo todo, parte a parte, ele lembra do desespero de encontrar outra casa, aquilo era absurdo, como assim encontrar outra casa?! Lembra de contar para seu pai, e este chorar. Lembra de conseguir ajuda de seu grande amigo Cassiano para encontrar enfim outra casa, e essa casa em especial, dividida com outra pessoa, veio a definir tudo que se seguiu dali em diante. Lembra pouquíssimo da mudança, lembra apenas de sua afilhada chorando, lembra dos seus amigos, todos vindo ajudar a puxar os móveis e tudo mais. Aquilo foi tão forte e tocante para ele. Mas lembra que só conseguiu chorar realmente de noite, quando quase tudo já estava no lugar em seu novo quarto que era uma sala, e seu amigo (novo), empolgado com toda a mudança e o fato de ter alguém com quem compartilhar a vida conversava e ouvia música em seu pc, fechou uma gaveta e percebeu que não estava dando conta da dor, que não ia dar certo. Ele precisou sair. Só disse que ia sair, e saiu. Chorou por mais de uma hora, sentado num banco frio e úmido da mesma praça do ginásio que passara a pouco tempo, e ali só conseguia imaginar a dor que sentia como sendo um meteoro no peito, um meteoro de gelo, caindo diretamente em seu peito e destruindo toda e qualquer possibilidade de seguir em frente. Não havia imaginado, sentido, dessa forma. Não sabia que a dor de coração partido era real, mas é, e dói, como nada na vida. Cada dor é única e sincera, mas esta, até então, fora a maior que já sentira.

Era incrível como não conseguia manter qualquer linha de raciocínio por mais que se esforçasse. Percebia-se divagando mais e mais. Da falta de fôlego, chegou no fim destruidor de seu primeiro relacionamento. E o que viria depois? Sentiu-se um pouco enjoado de si, como se uma repugnância se tornasse clara repentinamente. De que adiantava aquela caminhada? De que adiantava todo esse diálogo interno? De que adiantava todos os livros que lera? Castañeda, Paulo Coelho, Dostoievski, Murakami, Manoel de Barros, Bugliosi, Capote, Waldo Vieira, Sartre, Nietzsche, Alan Moore, Gabriel Causen, Bukowski, Mann, Joyce, Jens Peter Jacobsen, Rilke…. De que lhe servia hoje, zumbi, vagando em meio a avenida central, numa fria noite triste, desesperançoso e sem apetite algum de experimentar o dia seguinte? Nunca concebera de fato por fim a sua vida, não só por que repugnava o ato instintivamente, como se não fosse natural e possível, não só pela compreensão da possível dor e estrago que isso lhe traria, não só pela dor que causaria ao outro, aos outros, mas também por que sentia que o mínimo que se podia fazer, era viver. É o mínimo que se pode fazer. Viver. Sofrer. Sentir. Tem-se em mãos o absurdo da vida, da existência, essa paranoia complexa que insistimos com todas as forças em colocar significado e que insistimos tanto e tanto, que conseguimos encontrar os mais variados significados, e desejamos tanto e tanto sentir conforto diante desse aglomerado de realidades boas e ruins que abraçamos estes significados, acatamos suas regras, cada qual com suas preferidas.
Inclusive tinha clara noção de que essa visão existencialista, absurdista era nada mais nada menos que só mais uma crença, uma significação dessa panaceia de moléculas caóticas. E era rir para não chorar. E ele riu sozinho e em silêncio, com os olhos úmidos de lágrimas frias, enquanto cruzava a rua para não ter de cumprimentar nenhum possível conhecido que se aglomerava ali na esquina daqueles malditos quiosques. Aquele lugar cheiraria urina se fosse menos central. As pessoas não urinavam ali por que era muito central. Mas era sem dúvidas um imã de gente repulsiva e gente em busca de aventuras banais e estúpidas. Estava exagerando, e sabia disso. Não era nada demais. Aquele quiosque não passava de um simples ponto de encontro de um pessoal que ele nunca teve amizade nem nunca quis ter amizade, e apesar disso, participara de alguns eventos ali, logo ao lado. Mas quando observava aquele cenário, o que via era gente de roupa de rock, coturnos em pleno verão de trinta e seis graus, barba grossa úmida de cerveja mediana (por que a mais barata já era malvista até pelos infelizes e incoerentes), cigarros, tocos de cigarros voando, a pontinha dos dedos malditos dedos, jogando as malditas pontinhas de cigarros em cada vão da calçada, e ficando ali fedendo, cigarro fedendo semelhantemente a urina. O outro lado da rua era soturno o suficiente para ele abraçar as sombras e desviar em meio às arvores em busca de um novo rumo. Mas não devia ir para casa já? Observou a luz clara e ácida do celular e notou que seu devaneio todo desde a última análise do tempo durara muito pouco. Poderia seguir o percurso sem se afobar.

Em determinado momento cruzara com duas moças, dessas que provavelmente não valem nada, e que deixam claro isso pelo modo como agem (e não só como se vestem, por que se dissesse ou pensasse que são vagabundas por causa da roupa que usam, a polícia do pensamento já estaria o esfolando, certamente, e viraria notícia de rede social devido ao seu pensamento retrógrado), elas demonstravam com a postura corporal, a roupa, a fala e tudo que poderia se analisar a distância, que queria se divertir sexualmente naquela noite, e que queriam ficar bêbadas ou chapadas. E qual é o problema disso? Uma feminista em pânico diria: -E os homens dessa mesma cena, do mesmo ambiente, não estão exatamente querendo a mesma coisa? E você? Você já não quis exatamente a mesma coisa inúmeras e inúmeras vezes? Sim, quis, sim estão. Por isso que tudo isso causa repulsa, pela simples facilidade e flexibilidade social que essa parcela populacional tem e eu não tenho, pelo simplesmente fato deles conseguirem se drogar e transar e eu não. Por que no final isso tudo é sim apenas recalque liso e cristalino. Neste casa, era mais provável que elas estivessem apenas bêbadas, já que ao que tudo indicava, faziam parte de uma cena da cidade que não envolvia drogas ilícitas (poucos anos depois ele descobriria que qualquer pessoa da noite (e do dia) usa drogas, na verdade descobriria que todas estavam sedentas por se entorpecer tanto quanto fosse possível com toda e qualquer substância encontrável, com procedência ou não, além de grandes quantidades de destilados doces.

Mesmo considerando aquela cena atroz repulsiva, já fazia um tempo que deixara de fingir que não se excitava ao ver um corpo feminino. Desde que deixou de ser vegetariano tem sentido muito mais desejo sexual, as vezes uma incessante necessidade de foder (ao menos em pensamento), e ao cruzar com estas duas figuras abstratas culturalmente, fez questão de olhar firme em seus olhos e em seus ventres, precisamente para os minúsculos shorts que escondiam provavelmente uma boceta depilada (ele sempre, sempre se questionava, quais eram depiladas, quais não eram?), aparentemente todas as mulheres da atualidade, com menos de vinte e cinco são depiladas. E automaticamente sentiu um calor em seu membro ao imagina-las nuas, ou apenas de calcinha, rebolando e esfregando suas nádegas em seu pau. O pensamento durou pouquíssimo, não só pela amargura que vinha embutida com o pensamento, mas por que logo atrás delas vinha todo um mundo de gente, pessoas e mais pessoas, gente rápida ativa, gente conversante, gente feliz, gente cervejinha e bagunça. Apenas um conhecido no meio daquele povaréu que se espalhava pelas calçadas, era sexta feira? Cumprimentou de leve com a cabeça e rapidamente cruzou para o outro lado da rua. Esse zigue zague era tudo que lhe restava já que insistira em ir pela avenida da cidade. Até cogitou em descer uma rua e manter-se no silêncio soturno do caminho de volta, mas queria se desafiar. No fundo ele gostava, sabia que gostava. Quando está de bom humor e com um nível considerável de autoestima faz de propósito os percursos mais populares e tumultuados exatamente para perceber qualquer repercussão no ambiente que afague seu ego. Sentia-se encriptado, como se uma virose lhe atacasse o cérebro, podia até simular o mecanismo do caminhar, do sorrir e cumprimentar, podia até mesmo criar longos diálogos mentais a respeito de sua vida e suas lembranças, mas era como se tentasse fazer um almoço elaborado e sincero em uma cozinha que esconde em seu canto uma fruteira, e nesta fruteira, bem embaixo, no cantinho, escondido atrás da última laranja, um pequeno tomate podre. E este, constante e firmemente exala sua fétida podridão, ainda que de forma sutil, não deixando o cozinheiro esquecer que algo está errado naquela cozinha, por mais cheiroso que esteja seu almoço, ele não vai ter o melhor dos apetites sentindo aquele cheiro.




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