Anne Brigman – sem nome e data definida

Não havia como, não havia. A maldita relação era como um monstro um simbionte alienígena pegajoso feito de piche canceroso. Seu coração doía feito morte a cada momento, não conseguia conceber solução alguma em meio a tão opressora situação. Nem mesmo as músicas arenosas e lamuriosas de Nick Cave lhe davam acalento para essa maldição soturna que se apossara de sua existência, e como uma doença terminal não lhe dava dias de paz, apenas pequenos momentos de calmaria seguido de uma tempestade mais brutal, calamidade avassaladora que lhe doía o estômago.

A maldita empresa de internet que parecia ter brotado de uma porra de um conto Kafkiano simplesmente não dava sinal de vida (o rolo de fibra ótica jamais chegaria), o carro tossindo cada vez mais forte prestes a desconcholar-se como num desenho animado, seu pai perdendo cada vez mais a lucidez e tirando sua sanidade com questionamentos absurdos e nonsenses, sua mãe lamentando-se por saber que teria que vir embora para São Mateus do Sul. Sentia suas entranhas mastigarem-se com dentes afiados só de pensar na desgraça de sua realidade e questionava-se: Será que este era de fato o pior momento de sua vida? Será que os outros anos estavam tendo suas angustias sublimadas pelos apegos espirituais e pareciam mais fáceis? Ou eram mais fáceis pelo reforço espiritual? Então a vantagem da religião era de fato facilitar as coisas, como uma penetração bem lubrificada?

Sentia vontade de botar fogo no mundo, de devastar a alma das pessoas, de explodir caminhões com tiro de lança mísseis, de chutar pessoas, de explodir-se, de explodir o mundo num só estalido, sem haver tempo de compreensão nem pessoal nem externa. Queria perder a memória e acordar na Russia, queria avançar um capítulo e ver-se velho como seu amigo Maurício, ganhando muito dinheiro e lendo um livro fodido de bom. Queria esvair-se em distorções, entrar dentro de uma microfonia e morrer nela sinestesicamente. Queria parar de sonhar agonias terríveis, como na noite passada, em que sonhara que sua esposa havia lhe contado que experimentou chupar os dedos de todos os funcionários homens do mercado 70 para ver como reagem e quais lhe surpreenderiam mais, e contou que um deles fez algo com os dedos em sua boca que ele jamais tinha feito e estava excitada com isso.

Queria parar de viver nessa espécie de “Insustentável leveza do ser” às avessas cheia de amarguras febris. Sentira-se tão inútil naquela noite antes do sonho, sairá para beber com seu amigo Bruno enquanto sua esposa e a esposa de Bruno e também uma outra amiga foram a outro bar. O papo começara bem, utilizaram o tempo para despreocupadamente discutir o amor e a angustia pelo viés da filosofia, porém com o passar dos copos de chope e das horas que escorriam nervosas no celular, a conversa descambou para opressão emocional, desconfiança e incerteza. Até o fim da noite sua vida estava um lixo maior do que já fora nos últimos 11 anos e toda a presença naquele ambiente lhe causava angustia e desgraça interna. Mal podia respirar aquele ar de bar blasé, estúpido e ridículo, aquelas adolescentes todas confiantes em suas máscaras sociais de fumantes rebeldes da noite, outras alcoolizadas completamente estúpidas e ridículas, jovens amenos e vazios que buscam desesperadamente o afeto e o desapego numa contrapartida confusa e lamuriosa, rodadas de chope e de música de péssima qualidade, dinheiro que se esvai como fumaça no vento, comida gourmetizada para camuflar a maldição de acreditar naquele tipo de ambiente, que apesar dos pesares ainda era um dos melhores que aquele buraco de cidade ridícula poderia oferecer para a juventude carente de vida noturna.


E quanto mais as horas passavam, mais vermes se retorciam em seu estômago, imaginando todo tipo de absurdos a respeito de sua esposa, até chegar ao ponto de que tinha total certeza de que ela já nem estava mais no bar que haviam ido, mas sim num carro com alguém ou até mesmo na casa de outra pessoa. Quando o bar não lhes servia mais resolveram andar para passar a hora, pela cidade vazia, triste e vazia, silenciosa e triste, vazia e amarga, como um chá de boldo que esfriou, como uma carta de falecimento militar que você não quer abrir, como um resultado de exame que vai lhe foder com a vida, cidade vazia, triste e completamente negativa.

Ao menos não encontraram nenhuma viva alma no caminho, mas cada passo que dava, e cada oportunidade de conferir a hora e ver que ela não ligava, não ligava, mais medo tinha do que havia decidido de sua vida. Como fora se meter em tamanha roubada? Como podia ter sido tão filho da puta? Como? Em que momento que sugerir que abrir a relação poderia ser uma solução para a angustia que vivenciavam? Quanto por cento dele acreditava que ela só queria descontrair com as amigas e não sentir-se livre e ansiosa pela oportunidade de flertar e encontrar alguém novo que não perguntasse a respeito dele, que não quisesse saber onde estava o resto da família e por que ela estava ali sozinha. Alguém novo que quisesse conhecer ela, e não o conjunto todo de informações! Com todo aquele maldito álcool que cada vez tornava-se mais repudiado em seus conceitos pessoais, ele não conseguia pensar direito sobre o que ela queria, o que ele queria, ele só sabia que era o começo do fim. O começo do fim. E foi isso que postou naquela foto obscura da livraria fechada, fechada para sempre, pois havia falido: O começo do fim. Quem entender entenderá.

Foi Bruno que havia dito para ele se preparar, pois a partir daquele dia, nunca mais as coisas seriam iguais. E de fato. Profético. Agora, mesmo depois de infinitos esclarecimentos, de tudo que podiam esclarecer, restava a maldita argamassa existencial, ele jamais conseguiria lhe satisfazer novamente, sabia disso. Quando teve um efeito rebote de amor no dia seguinte ao sonho desgraçado, quando conversaram a respeito da saída dela, e passou o dia destilando amor e dedicação para ela, foi o tempo todo dinamitado pela certeza dela de que aquilo não era seu jeito natural, e cedo ou tarde aquela máscara iria cair, e ele voltaria a ser o maldito soturno e amargurado ser que não sabe dar carinho e atenção, que olha o mundo com o vazio, com a dor e com a angustia.

Que sabe ser simpático com os outros e respeitoso, mas com quem vive e com quem ama, ele só dá a dor e o sofrimento, tira toda a roupa e demonstra seu ser morto vivo, cheio de pântano e carniça, seu hálito de ogro, de maldito, de negatividade. Dito e feito, não conseguiu passar do dia seguinte, quando teve a ajuda fantástica de seu amigo José, perito em machucar totalmente as pessoas de forma insensível e autista. Seus ataques consecutivos mixados com a acidez e violência verbal e psicológica dela acabaram com ele, e naquela noite, a máscara quebrou no chão, como gesso fraco, espatifou-se. Ele não queria vestir outra máscara. Na verdade, não tinha outra. Foi trabalhar sem máscara no dia seguinte. Tanto que na primeira oportunidade, utilizou aquela perturbadora rede social no serviço para perguntar para a esposa, o que ela queria afinal de contas, por que não sabia qual máscara vestir ou se podia ficar sem, porém precisava saber o que fazer, precisava de uma coordenada. Certamente um dos maiores problemas em uma lista de dez defeitos nauseantes que possuía, não saber o que fazer e exigir coordenadas estava no top five.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *