Capítulo 02

Aquele vento poderia anunciar chuva? Não sabia dizer, mas parece que as estrelas já não estavam tão visíveis agora. E dado o tamanho calor que fizera naquela fatídica tarde, era bem provável que a noite acabasse num aguaceiro. E tamanha era sua baixa estima naquele momento que pensou que seria no mínimo necessário tomar um temporal na cabeça, daqueles que comprova que você é um merda. Não que todo temporal significasse isso. Uma chuva forte bem caída pode trazer alegria e purificação para alguém livre de problemas emocionais e psicológicos, assim como esta mesma chuva, desta noite, pode trazer uma felicidade imensa para um casal que corre mas não foge a tempo de não se molhar, então decidem aceitar a fria água que despeja das nuvens e se beijar apaixonadamente como se aquilo estivesse sendo gravado. Fazia tempo que não se entregava de forma tão profunda a toda merda que lhe passava pela cabeça, que sentia tão sinceramente seus erros e amarguras sem julgamento sublimador ou amenizador. Será que esta postura existencialista enfim estava sendo boa para ele ou não? De qualquer forma o que poderia fazer? Não existe uma opção de voltar atrás. Ah, agora vou voltar a acreditar na providência divina! Sem provas nada seria possível, e ao que tudo indica, ele sentia que ao menos nesse planeta, até hoje não houve uma prova, uma única sequer, a despeito de toda baboseira e teorias teológicas e o diabo a quatro!

No final das contas fazemos tanta força para significar nossas vidas que isso poderia ser a própria causa de qualquer tumor, é força e mais força! -Não pode ser que estou novamente nesse mesmo raciocínio, loop infinito. Por que? Por que fico circulando tanto em minha vida, e em ciclos tão curtos e efêmeros? E essa sensação de peso no fígado? Afinal o que fazer de toda essa merda? Preciso cancelar a internet, maldita empresa que vende seus direitos para outra empresa, preciso pagar a conta do cartão. Banco traiçoeiro! Não consigo nem suportar a ideia de enfrentar outra fila daquele tamanho para um jovem estagiário triste e totalmente coitado (maldito coitado, por que não posso nem mesmo culpa-lo, mas é naturalmente alvo de culpa por fazer parte desta desgraça) vai me dizer (depois de uma hora de fila) que meu cartão extraviou-se novamente no cu de alguém no meio do percurso do grande banco central, pai de todas as desgraças financeiras do Brasil e São Mateus do Sul. Onde será? Onde será afinal que ele está agora? Ele pode até ter apertado o comando de “destruir cartão”, mas isso é só um tipo de falsa solução, vai ver nem fizeram, nem derreteram o plástico. Vai ver estava pronto e alguém pagou para comprar e clonar ele. Vai ver ele caiu da caixa e alguém varreu até o esgoto mais próximo. Vai ver existe algum bloqueio por que alguma investigação envolvendo rede de criminalidade da deep web achou meu nome vinculado a esta conta e está planejando um rastreio… grampeando o cartão? É possível grampear o cartão? Sinto o cheiro da tempestade chegando.

Ele para, olha para trás e percebe o caminho que percorrera, agora estava no alto da avenida, perto de uma padaria extremamente capitalista e escravagista, ao ver as luzes dos carros vagando lentas como pequenos robôs zumbis e estúpidos que não conseguem ir no mesmo fluxo de forma ritmada, os vultos distantes de alguns consumidores de cerveja e de alimentos banhados em óleo de soja, o balançar dos pinheiros. Sente o cheiro no ar. Uma fragrância única. Cheiro de gel de cabelo, ou aquele shampoo quase padrão utilizado pelos cabeleireiros quando se lava o cabelo antes de cortar. Também um suave aroma de pipoca sendo estourada no carrinho, próximo à rodoviária. Cheiro de noite. Cheiro de vento que traz chuva. Lembrou-se do termo “cheiro de natal”, que seu amigo Pedro sempre comentava. O cheiro do Natal. Mas no final das contas Natal não tem cheiro. O que tem cheiro é a Vila Pinheirinho. Que sempre teve um cheiro específico, diferente de todo o resto da cidade. Pinheirinho sempre cheirou riqueza solitária, casas vazias, viagem para a praia, concreto frio, móveis novos pouco usados, sofás bem cuidados, sinos dos ventos que balançam tristes com os pés de vento repentinos que sobem o morro do taquaral, vindo lá da fazenda Maria Izabel, cheiro de juventude e de receio adolescente, receio de um beijo, receio de um sexo, cheiro de tênis novo. Cheiro de carro bem lavado, sem lama ou restos de salgadinhos espalhados no tecido dos bancos ou no carpete. Ao inundar-se com o cheiro daquela noite, sentiu-o como um código, uma resposta inerente, uma verdade oculta que se revelava enfim.

Mas, como naqueles sonhos fantásticos e extremamente significativos que se tem, e que, porém, se acorda repentinamente, tal sentido, resposta e lógica se evanescem, desaparecem antes mesmo que se possa puxar um fragmento mínimo para alcançar o fio da meada. Sentiu-se nostálgico e triste por essa emoção tomar-lhe o peito de forma tão intensa, coisa que não sentia desde que era novo, dezesseis anos, andando com Juliano pelas escuras ruas da cidade, pichando paredes com um frasco de desodorante barato (de plástico) cheio de tinta fraca. Foi ali, exatamente ali que ele começara a viver de verdade. Pensara em vários momentos, em várias situações chave de sua vida, mas sem dúvidas se existia um momento que sentia que lhe acordou para o universo, para a realidade, foram aquelas inúmeras noites, em que saia pela cidade sem rumo algum com Juliano, simplesmente andando, conversando e sentindo a vida. Sentindo que encontrara alguém com quem compartilhar algo incompartilhável, algo inexplicável, que só poderia ser sentido, sem muitos questionamentos. Ao trazer essa imagem na mente, parado ali em frente à maldita padaria escravagista (não havia percebido que estava parado, inerte, quase como um autista), sentiu vontade de chorar novamente. Desta vez chegou perto. Na verdade chorou, deixou vir a sensação toda, do nó desatando da garganta enquanto tremia o queixo levemente, dos olhos marejando, mas ao perceber que aquilo estava ficando complicado de se explicar num futuro próximo (já que o lugar estava sempre cheio de conhecidos, inclusive os atendentes), movimentou-se rápido, limpou os olhos e decidiu apressar o passo até a casa enfim. Andou tão rápido quanto pode sem parecer estranho e logo sua mente anuviou-se novamente de fragmentos amassados e pastosos.


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