Ao se terminar a leitura de Precisamos falar sobre o Kevin, o leitor provavelmente passará por um período de luto interno, de amargor no céu da boca, como quem presenciou uma atrocidade que não deveria ter acontecido. Pode parecer grave para um livro, mas, é exatamente isso que confirma o poder e importância deste visceral romance de Lionel Shriver. Sua capacidade de nos transportar para o mundo de Eva Khatchadourian, a mãe de Kevin é hipnotizante, principalmente dado seu teor de realismo nas ações e emoções dessa mãe derrotada, desde a gravidez talvez. Um primeiro olhar materno pode considerá-la uma mãe ruim, insensível talvez? Mas em poucas páginas das lembranças escritas em cartas ao marido Franklin Plaskett o leitor certamente compreenderá a situação nauseante e desesperadora de Eva, enfrentando a vida, fazendo o melhor que pode para criar uma criança e perceber-se dia após dia vendo crescer um jovem sádico, insensível, retraído, obscuro e nitidamente com a inteligência acima da média.

   Na verdade falar de Kevin é difícil. O personagem é tão bem construído, tão realista apesar da “ficção nítida do mesmo” que as vezes é necessário conferir se não estamos lendo por acaso um documento biográfico de algum serial-killer relatado pelos pais à algum jornalista investigador. Naturalmente que temos como único ponto de vista as percepções de Eva, sua mãe, mas não poderia ser diferente, vocês verá. Eva vivencia o calvário das tentativas constantes de se unir espiritualmente com Kevin, de sentir-se em um relacionamento de mãe e filho, de vivenciar um amor por ele, porém toda e qualquer expectativa é frustrada, mesmo com Kevin pequenino, que dava o melhor de si para mostrar que não precisava e não queria da ajuda da mãe. A outra metade do tempo de Eva é utilizado enfrentando situações tensas e angustiantes das mais diversas que Kevin acaba por realizar, como fazer uma amiguinha da creche se coçar até verter o corpo todo em sangue devido a uma doença de pele, apenas convencendo-a a isso, já que sentia tanta coceira, que mal havia? Ou de jogar pedras em viaturas, e assim por diante. Naturalmente que o sadismo e violência das ações só vão ganhando força com o passar dos anos relatados por Eva.

Ezra Miller, impecável no papel de Kevin na versão cinematográfica da obra, uma das poucas adaptações extremamente assertivas do cinema.

   Mas mesmo a violência ou qualquer prenúncio desta ainda é pequena quando observamos a composição psíquica de Kevin, seja por ele propositalmente utilizar fralda até os seis anos de idade para exaurir qualquer tipo de força da mãe, seja por seus diálogos com Eva completamente insensíveis e pior, propositalmente capazes de feri-la. Seja pela atuação de “filhão do papai” que Kevin faz sem cerimônias aos olhos da mãe (a única que percebe a farsa) ou até mesmo pela cena da masturbação de porta do banheiro aberta, esperando que a mãe o pegasse no flagra. Kevin é um ser complexo e de uma psique riquíssima. Vale lembrar ainda do hábito em só utilizar roupas bem abaixo de seu tamanho, mantendo-o quase andrógino, espremido nos tecidos e as tentativas de Eva em compreender esse hábito. Mais enigmático ainda é o único momento da infância de Kevin onde este se mostrou “precisar” da mãe, em um episódio de febre alta, onde mesmo onde em qualquer outra realidade seria normal, Eva precisou se questionar se não havia algum truque por trás, aflita sem saber como se comportar diante do pedido de carinho e atenção do filho. Naturalmente, nunca mais tal afeto se repetiu logo que Kevin sarou.

   Não é segredo para ninguém que o ápice esperado do livro é o fatídico dia em que Kevin vai para a escola unicamente para matar alunos e funcionários com uma besta, sim uma besta. Seria fácil demais apenas utilizar uma arma de fogo, aliás, sendo Lionel Shriver uma libertarianista, imagina-se que de forma velada existe ali uma espécie de manifesto, um exemplo para comprovar que não é a arma de fogo que torna as matanças em escola reais, que um arco e flecha pode fazer tão mal quanto qualquer outra arma, Shriver dá luz à estatística de que existem mais mortes nos EUA com martelo do que com rifles sem precisar falar a respeito disso. O extermínio dos colegas de classe e de alguns funcionários no ginásio do colégio de Kevin geram uma gama de reflexões e questões em Eva e na sociedade. Por que estes alunos, por que agora, por que assim? O relato (sempre direcionado ao pai de Kevin, Franklin) do dia da matança pelos olhos de Eva é de causar embrulho no estômago, toda sua angustia, sua tortura, seu desespero e aquela grande interrogação deixam o leitor reviver essa cena inventada extremamente real. Novamente você irá se perguntar se Shriver não vivenciou tal situação ou ao menos conversou com gente que vivenciou, vai pesquisar, vai olhar a orelha do livro, vai respirar fundo, angustiado e decidir continuar a leitura.

Eva Katchadourian, representada por Tilda Swinton com maestria. A angustia em forma de mãe.

   A escolha de construir a história em um romance epistolar foi certamente muito inteligente, e as cartas endereçadas ao pai tem duas realidades: das lembranças e das visitas à prisão. As visitas são o respiro do romance, nenhum pouco aliviantes, pelo contrário, é como a espera no necrotério para reconhecer o corpo. Mas ainda assim é o momento onde vemos o contato frequente, insistente e profundo entre Eva e Kevin. Acima de qualquer tortura e dor, Eva tem como missão de vida, talvez o único motivo de estar viva, numa situação claramente análoga ao Mito de Sísifo, explanada por Camus, onde do absurdo de se estar vivo, precisamos tirar força daquilo que mais nos tiraria o motivo de vivermos, uma espécie de subversão da lógica da existência. Eva tortura o cosmos ao insistir em simplesmente continuar indo e indo novamente visitar o filho na prisão, até ele fazer dezoito anos. Não espere respostas nessas visitas, o que se pode ter com o passar do tempo são fragmentos cada vez mais ramificados, mais complexos e mais horrendos a respeito da vida vivida por essa família.

   Por fim, Precisamos falar sobre o Kevin é sem dúvidas um dos livros mais poderosos em termos de emoção e sensibilidade da literatura atual, não tive oportunidade de ler outros da mesma autora, mas dado o potencial dessa obra é difícil imaginar que não sejam no mínimo ótimos. Lionel Shriver é uma autora para se conhecer sem dúvidas. Ao decidir-se por ler esta obra em especial, esteja preparado para algo pesado, muito pesado.

Para quem gosta de: Romance epistolar, sofrimento e angustia, psicologia, cultura americana, relatos criminais, relação mãe/filho e literatura contemporânea.

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Outros títulos da mesma autora:

A nova república
Dupla falta
O mundo pós-aniversário
Tempo é dinheiro

Fonte das imagens: 1, 2, 3, 4


2 comentários

Karine · 31 de Março de 2018 às 18:00

Medo mórbido de ter filhos e vir um Kevin. O filme já me assustou pra vida kkkk

Resenha impecável. ❤

    O Escritor · 2 de Abril de 2018 às 19:28

    Obrigado Karine! Já passei por esse medo também! Hahah!

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