Mais de uma vez li resenhas a respeito do Lobo do Mar, cultuada obra literária do grande Jack London que simplesmente não condiziam com o que observei e senti durante sua leitura, o que me fez pensar se de alguma forma compreendi o romance de forma deturpada ou se as pessoas realmente são rasas demais para ponderar um nível mais profundo a respeito das palavras expostas ali. Gosto de considerar o Lobo do Mar como uma introdução literária para o pensamento Niilista e Existencialista, quem perde esse ponto crucial, perde o sentido da história.

   A história consiste num simples acaso, um acidente na balsa que levaria o protagonista Humphrey Van Weyden para casa acaba o transformando em náufrago. Este tem a sorte de ser resgatado pela escuna de caça as focas “Ghost“, esta está rumando para a temporada de caça no Japão. Humphrey procura então o capitão para agradecer pelo resgate e também solicitar que seja deixado em terra firme antes que partam para o Japão. Só que não. Humpgrey conhece então uma das figuras mais fortes e poderosas da literatura: Wolf Larsen.

 

   A primeira vista, Larsen é exatamente o que alguns críticos literários descrevem: Um homem frio, rígido, intolerante, violento e assustador. Tudo isso intercalado com um porte físico poderoso, um grande homem com a força e brutalidade estampada em sua presença. Isso fica claro nas várias situações assustadoras que acontecem já na chegada de Humphrey ao Ghost. Sem muito esforço, o protagonista compreende que suas chances de voltar para casa eram zero e dali pra frente a expectativa oscilava entre encontrar outro navio que o resgatasse ou então chegar logo ao Japão para sair daquele inferno.

   É importante entender que Jack London tem um potencial brutal de descrever a vida em situações incomuns para os leitores, a descrição da vida no convés entre homens brutos, sujos, inconsequentes e insanos é descrito de forma genial. A fragilidade do playboy Humphrey, que nunca precisou ganhar dinheiro para trabalhar e sempre teve tudo do “bom e melhor” é rasgada, violentada e humilhada nas mãos do Lobo Larsen, que logo ao perceber a estrutura quebradiça da postura existencial do protagonista, o põe para trabalhar, ganhando menos que alguns dos marujos ali presentes.

   Daí pra frente um leitor minimamente afiado terá o prazer de degustar o equivalente a um romance de formação, mas não na formação biológica, do crescimento físico do protagonista, e sim de sua mente, sua alma. Ao vivenciar todo tipo de atrocidade possível, quase numa situação de absurdismo escancarado ao sair de seu mundo e enfrentar a tripulação Humphrey cresce como pessoa, pouco a pouco, aprendendo com os golpes da vida. Mas acima de tudo e principalmente, pelo contato com Wolf Larsen. Pouco a pouco uma relação complexa e assustadora estreita-se entre os dois. Larsen revela-se um poderoso pensador, um homem que confirma com sua força intelectual e física, seu pensamento a respeito do mundo, e Humphrey ao receber tamanha torrente de raciocínios filosóficos profundos envoltos numa visão cruel e brutal da vida acaba por sentir-se transtornado, como quando não se sabe mais no que acreditar.

   Apesar da violência e frieza exposta no modus operandi de Wolf Larsen, este discorre perfeitamente a respeito de uma versão empírica das bases do Niilismo e do Existencialismo. Em poucos parágrafos o leitor é tomado por torrentes de filosofia niilista que abarca muito do pensamento de Nietzsche, Schopenhauer e outros pensadores que causam até hoje impacto em seus leitores, ou melhor, em seus contrários. London apaga um cigarro na ferida infeccionada ao dar corpo de monstro, de homem sujo, barbudo, forte e violento a um pensamento que tem exatamente essa força. Mas junto a seus enigmáticos olhos, Larsen revela que o físico exposto é apenas reflexo de seu intelecto e raciocínio.

   Isso por si só é o ouro do livro, ele poderia acabar aí. Mas como nem tudo é perfeito, quando o leitor vê introduzida uma personagem feminina para causar turbulências maiores ainda na relação de todos os tripulantes do navio, acaba por sentir-se desapontado e pensando que a leitura vai por água-baixo. Porém London consegue reerguer a trama e o livro mantém-se em ótimo nível. Daqui pra frente não vale a pena contar para não estragar a graça de quem se aventurar neste perigoso mar que consegue flertar com a filosofia de uma forma perfeita.

Para quem gosta de: Jack London (O chamado selvagem, Caninos Brancos), Filosofia (principalmente niilista e existencialista) e aventuras marítimas.

Fonte das imagens:
Capa do Livro
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