O hino do coração melancólico

Soberba pintura de Hammershøi que tornou-se capa do livro no Brasil.

   Muita coisa me vem a mente ao pensar em Niels Lyhne. Reiner Maria Rilke sugerindo para o jovem Kappus que lesse esse romance, reforçando que “ali estava tudo”; A época em que descobri o livro, um fim de relacionamento, onde este me serviu de um consolo às avessas, dado seu teor absurdamente existencialista (ainda que romântico); Seu autor, Jens Peter Jacobsen, um genial naturalista de apenas dois romances e uma curta vida ceifada pela tuberculose. Já faz muitos anos que li Niels Lyhne e quem sabe fosse importante lê-lo novamente antes de escrever uma resenha a respeito. Mas não, segui o impulso de escrever a respeito impulsivamente, apenas pela memória emocional que me atinge ao pensar nesse curto e obscuro título.

   Fico fascinado realmente ao pensar que Jens Peter Jacobsen é praticamente ignorado pelos leitores brasileiros, por que dentro do circulo da intelectualidade acadêmica ou “home-made” temos uma vasta gama de idólatras de escritores dos mais variados gêneros. Não sou ninguém para deduzir com força isso, mas dado que a única publicação em português de algum título de J P Jacobsen foi o Niels Lyhne pela falecida Cosac Naify e desde então nada, nada mesmo, só me resta pensar que: ou falta público, ou falta senso lógico das editoras. A edição da Cosac encontra-se esgotada desde antes de seu fatídico fim com queima de estoque com desconto. A oportunidade mais próxima que tive de comprar foi por volta de sessenta reais, e hoje, nos sebos não sai menos que duzentos este pequeno grande romance.

   Quem sabe não seja tão estranho o brasileiro não falar muito de Jacobsen, afinal, um escandinavo ateu não é o tipo de ídolo preferido para o sangue quente e irritante do homo-braziliensis. Não se sinta ofendido, o brasileiro tem características muito importantes que o escandinavo não terá, mas que é irritante, isso é. Mas apesar da densidade intelectual ateísta de Jacobsen, sua escrita é agradável. Não só agradável, mas prazerosa. E o mais intrigante disso é saber que Niels Lyhne não é um romance feliz, Niels, o protagonista vive da angustia do insucesso emocional e espiritual, vagando entre a busca do sentido e a cor de seus sonhos, seu divagar em busca de uma solidez e garantia na vida, porém quase sempre marcada por amarguras e dificuldades explícitas. O dom de Jacobsen está exatamente em trazer jubilo e bem estar ao leitor ainda que num romance amargo.

   Como todo bom romance de formação Niels Lyhne narra a trajetória de vida do protagonista (Niels) através de seu mundo real, difícil, concreto, completamente desprovido de magia ou fé cega juntamente com sua fluidez poética, emaranhado no mundo lírico, poético das expectativas de vida e do coração do personagem, na verdade, provavelmente um reflexo do autor. Seja como for, acima de qualquer conceito ateísta que permeie o livro, sua energia é sem dúvidas a poesia, é ela que flui o romance, é ela que movimenta os personagens e seus devaneios e a poesia como era de se esperar, é melancólica. Reforço então, Niels Lyhne é um livro para melancólicos, para os que flertam com a dor da perda e da morte, mas ainda assim banhados pela luz trêmula de uma manhã revigorante, com aquela sensação de que as coisas valem apenas ainda que possam doer demais. Como se do pranto da alma perdida brotasse uma flor viçosa.

   E como era de se esperar, não só pela figura de Jacobsen, mas pela lógica de um romance de formação (ainda que poetizado e complexo como este), este se finaliza com a frase: “-Depois morreu a morte, a difícil morte”. Com tanta poesia quanto essa frase pode suportar conter. E aceitar a morte do errático e confuso Niels é parte do processo que o autor constrói ao nos entregar uma vida escrita. Fica difícil dizer aonde é mais assertivo, se nas descrições tão, tão profundas a respeito de sensações e ambientes, momentos e situações, ou se com os floreios dos devaneios do jovem Lyhne buscando-se em meio ao vasto deserto da vida real, num entremeio de anseio e total desesperança. Mas o que levo de mais rico dessa leitura é sem dúvidas o pacote completo, da capa soturna com a pintura arrebatadora de Vilhelm Hammershøi ao acabamento da incrível versão esgotada do Casac, a surpresa ao deparar-se com tamanha dose de poesia aplicada diretamente na retina de uma forma muito mais poderosa que a própria poesia clássica, o altíssimo nível de existencialismo melancólico e delicado expresso na visão de mundo do autor mesclado ao pobre Niels.

   Se você quiser arriscar uma leitura em outra língua, algumas versões do livro estão disponíveis no mercado, como por exemplo a versão da Penguin Books que é sempre de ótima qualidade, ou então uma versão capa dura em alemãoSem dúvidas este é um livro que deveria ser lido, publicado novamente e estudado pelos que amam a literatura e a poesia. Vida longa para a memória que nos resta do grande Jens Peter Jacobsen.

Aprofundando: Difficult Death: The Life and Work of Jens Peter Jacobsen. Interessante obra (somente em e-book) a respeito da vida e trabalho do escritor. Escrito por Morten Høi Jensen.

Para quem gosta de: Acordar com esperança, pisar na grama molhada de orvalho, Escandinávia, existencialismo, romance de formação, tristeza do fim do dia (twilight sadness) e romantismo alemão.

Fontes das imagens: 1 e 2

 


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