O Literatura Visceral inicia hoje um espaço para resenhas, análises e críticas de literatura contemporânea nacional, de autores que estão iniciando neste mundo e procuram por reconhecimento de suas obras. É mais do que comum a não-valorização do que é novo, atual em termos de literatura, principalmente no meio acadêmico clássico, onde existe (por motivos inúmeros, alguns sensatos e outros não) uma aversão à literatura nova. Este blog, jovem como é, vê-se numa missão mais que natural de apoiar estes escritores que estão começando suas vidas literárias ou mesmo já tem carreira consolidada, mas muito menor espaço na cultura das resenhas.

Para iniciar esse capítulo, apresento para vocês o livro “Memórias da infância em que eu morri” do autor Hugo Pascottini Pernet.

   Memórias da infância em que eu morri conta através de relatos escritos (e gravados) por Hugo, um menino de 9 anos sua relação com a descoberta de um câncer. Através dos diários em primeira pessoa o leitor é envolvido pela visão de mundo do garoto e toda sua descoberta confusa a respeito da doença que tem. Hugo, talvez por ser em grande parte baseado no próprio autor, é um personagem muito sólido, muito intenso e é possível mergulhar na história sem qualquer esforço. O que vemos no primeiro momento é o desenrolar de uma situação que começa bem, a mudança da família para uma nova casa, a relação boa e comum do filho com seus pais e irmão, mas do fatídico momento de descoberta de um caroço nas costelas do filho, após um acidente na piscina até o final da trama, a vida de Hugo torna-se uma espécie de sonho ruim, febril, que não termina nunca.

   A começar pelo silêncio completamente perturbador de seus pais a respeito da realidade que estão vivenciando. A doença simplesmente não é falada às claras para Hugo em praticamente nenhum momento do livro, se não fossem personagens ao acaso como uma velha que o presenteia depois de uma novena em sua casa e conta que também já teve câncer, talvez Hugo nem iria saber com certeza o nome de sua doença. Mas certamente, no primeiro terço do livro o que pega mais forte o leitor é a sensação cruel de perceber Hugo não compreendendo o afastamento gritante de sua mãe, não entender por que dela simplesmente sumir de sua vida a ponto de que não possa nem olhar para ela, o pai, uma estranha figura que oscila entre o religioso fervoroso alienado que parece dar mais importância à mãe do que ao filho acaba de forma paradoxal tornando-se o único apoio do garoto, levando-o para o hospital, cuidando dele (até delegar o serviço para a nova empregada analfabeta). Fica claro que o pai, por mais presente que seja, é uma figura de menor importância, e que o desejo pelo amor da mãe chega a amargar o palato do leitor, tamanha é sua sinceridade explicitada pela visão inocente e simplista de uma criança de nove anos.

   A relação de Hugo com a doença é algo muito bem trabalhado no livro, até determinado momento o garoto simplesmente não sabe o que está acontecendo com ele ainda que seus sonhos lhe falem, inclusive através de um pesadelo “dostoievskiano” extremamente bem construído pelo autor, onde uma pedra começa a crescer no jardim de forma descontrolada. A perda de vitalidade e de ânimo é muito bem construída, e junto com seu definhamento, vemos o definhamento da esperança de retornar ao contato original que tinha com sua mãe, ainda que Hugo mantenha-se firme relatando (através de gravações em fita, a partir de determinado momento do livro) inúmeras lembranças sensíveis e tocantes que tinha com sua mãe. Quando já ciente de seu câncer, o garoto assume uma outra postura, talvez menos esperançosa, ainda que paradoxalmente sua relação com a religião (deixada bem nítida no livro) tenha se tornado mais forte, menos cética, até determinado momento.

   Essa relação com a religião aliás é ótimo substrato para o livro, algumas situações tão comuns para o brasileiro como o “padre no rádio que só fala de milagre e doença” dá um toque especial ao relato. O fervor religioso dos pais, entrando num vórtice nauseante de santos, velas, novenas e fé cega quase asfixiante nos faz pensar que talvez grande parte do que é chamado hoje de religião, na verdade é um culto hedônico, egocêntrico na exigência cega de milagre, corrompendo qualquer lógica original de uma tradição original, fazendo do pai de família (mais comumente a mãe brasileira padrão) um personagem que de forma quase autista, liga os rádios toda manhã pra ouvir o padre e rumina aquele mundo bizarro de atrocidade física lutando contra o milagre de Deus (ou das santas, no caso), como se a matéria fosse do mal e só o transcendente pudesse curar.

   A depressão da mãe é um dos pilares subentendidos da obra e sem dúvidas tem total importância no desenrolar da trama. Foi impossível, ao menos para mim não sentir repugnância do afastamento total, completo e absurdo da mãe para com o filho, mesmo compreendendo que a psicologia da mente humana é complexa e as vezes quase insondável. Não se pode lutar contra a construção de um personagem ainda mais um que mexe tanto com quem lê (o que só mostra o sucesso do autor, afinal), mas seu fosse possível ajudar essa mãe a recuperar o contato urgente com o filho nesse momento tão severo e brutal, certamente não faria da forma como o pai de Hugo fez, criando um universo particular para a mãe, evitando a todo custo o contato dos dois, simplesmente por um episódio de piora dela ao desmaiar no quarto do filho. Da mesma forma, fica claro que a psiquiatra na qual a mãe estava sendo atendida era uma profissional de pouquíssimo sucesso em sua missão. Ao desenrolar da trama durante os relatos de Hugo na gravação podemos juntar peças e perceber que possivelmente a mãe já tinha problemas graves de ansiedade e possivelmente de depressão, dado o episódio do avião, a ansiedade e os remédios nos dias de temporal e outras cenas. Para o leitor o que fica gravado na memória são as cenas de Hugo contando para uma mãe não presente através de gravações como tem sido suas sessões de quimioterapia e como faz falta sua presença.

   O livro conta com um imaginário poderoso, muitas vezes dando tons fantásticos ao livro e tornando-o maior ainda, como a estranha relação com as figuras femininas que tiveram câncer na perna. Na trama percebemos a velha senhora que dá o presente a Hugo, já mencionada acima, e esta relata que seu câncer na perna foi curado e agora ela usava uma prótese. Temos ainda a enigmática figura de Clara, a qual não irei detalhar aqui para não afetar as descobertas dos futuros leitores, mas que também diz que trata o câncer na perna desde os cinco anos de idade, e para finalizar a falecida filha da cabeleireira, menina de cinco anos que teve a perna amputada depois de um imenso descuido da mãe em não perceber que a filha tinha uma doença muito mais grave do que ela pensava.

   Essa figura inclusive, da cabeleireira é de uma riqueza interessantíssima, seja por essa estranha relação de falta de amor com a filha, seja pelo quarto preservado da criança mesmo tantos anos depois, onde agora usa como salão, intercalado com as memórias da falecida, inclusive com os mesmos móveis da época ou ainda pelo estranho fato do diário da criança (onde esta relatava todo seu rancor e tristeza infantil para com a mãe que não a amava direito) ter sido picotado e guardado numa caixa no quarto. O tom do relato envolvendo estas personagens tem um ar fantástico (no sentido de “literatura fantástica”, que espero que vocês captem sem eu precisar usar parênteses futuramente) quando o autor constrói a pequena história dessa mãe e filha e nos faz imaginar a garota com um câncer na perna, trancada em seu quarto o dia todo, tendo como única opção a leitura de revistas de fofoca até ser encontrada morta, dura no chão, certo dia por sua mãe.

   Inúmeras coisas podem ser ditas desta primeira obra de Pernet, mas acima de qualquer coisa, é um livro que vale sua leitura. Seja pelo magnetismo do tema forte e doloroso, seja pela riqueza de detalhes da visão de Hugo (o personagem) ou seja pela leitura fácil e rápida. O autor poderia sim amadurecer com mais cuidado o capítulo final, dando-o um prolongamento e detalhamento tal como fez com tantas incríveis passagens, porém, o livro praticamente não deixa pontas soltas ou a sensação de uma leitura fraca, pelo contrário, fixa na memória do leitor a experiência intensa vivenciada. O relato nu e cru de uma doença tão terrível vista pelos olhos de uma criança é muito bem composto, afinal, pensar em câncer em criança é como pensar no cálculo que prova que o mundo deu errado. O autor ainda permeia a obra com sua relação de proximidade com a poesia de Fernando Pessoa, dando mais lirismo a situação e fortalecendo o vínculo emocional do leitor com o personagem. Certamente Hugo P Pernet trará grandes trabalhos com o amadurecimento de sua escrita e este blog espera poder ler mais obras suas.

Pra quem gosta de: Relatos em primeira pessoa, romance epistolar, referências populares e se surpreender com obras desconhecidas.

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