Lembro-me que quando tive o prazer de ler Crime e Castigo pela primeira vez estava de cama por alguma doença boba qualquer, uma virose, mas entrecortado pelos arroubos de energia para leitura estava também as febres que iam e vinham e junto a elas, as febres de Raskólnikov, que passa a maior parte deste brutal romance em estado febril, esforçando-se para manter a lucidez depois da catastrófica decisão que marca a trama desta que para muitos, é a maior obra de Dostoiévski. Sou suspeito de confirmar a preferencia pela obra dado que foi minha leitura introdutória não só no mundo desse grande escritor como no mundo da literatura russa, e certamente não poderia ser melhor.

   Dostoiévski praticamente fundou um conceito cultural, um modelo de visão de mundo, é para alguns o pai do existencialismo. E com seu drama realista e completamente opressivo consegue tirar qualquer esperança da mente de seus leitores, a ponto de que quando enfim algo leve acontece, aquele pequeno momento ganha grandes cores e força, dado o nível de sofrimento verdadeiro expresso nos caminhos de seus personagens. Já li em algum lugar que a maior qualidade deste autor é de conseguir entrar profundamente em cada personagem que constrói, mesmo que a história possua 20 personagens marcantes, todos eles irão ser convincentes, instigantes, opostos, únicos e completamente críveis. Como se Dostoiévski tivesse o poder da empatia maior, capaz de saber exatamente como é a vida de cada pessoa, como se tivesse passado por tudo aquilo realmente e conseguisse traduzir em um romance.

   Partindo de um panorama pouco nítido a respeito do protagonista: Raskólnikov, o autor tece uma inteligente e angustiante trama que funde a descrição de uma Rússia fria, depressiva, pesada e nem um pouco acolhedora, com seus ambientes escuros, quartos caindo aos pedaços em pensões de péssima qualidade, gente ensebada e mal alimentada. O protagonista, jovem intelectual de gênio vigoroso passa por uma difícil fase de pobreza e ensimesmado em seu mundo não vê caminho para fazer dinheiro suficiente para seguir com os estudos. O leitor anseia junto ao personagem pela condição que este se encontra e vê formar-se passo a passo os conceitos de sua teoria megalomaníaca a respeito do “homem extraordinário” que tem o direito de estar acima da lei diante de sua inteligência e seu planejamento a favor de algo maior. Chegando então ao ponto de estar suficientemente convencido de que precisava experimentar o plano no mundo real e não apenas teoricamente.

   Não é nenhum “spoiler” o fato de que Raskólnikov mata a machadadas a velha agiota que costumava negociar com os pobres diabos daquela região. Mas o desenrolar de tudo que vem a partir de então é que irá fazer o leitor suar frio e entrar nos estados febris juntos com o protagonista. As descrições de delírio/pesadelo de Raskólnikov inclusive são de primeira qualidade, trazendo trechos perturbadores como o de um sonho onde o protagonista era pequeno e revivia um momento de passeio com seu pai pela cidade porém desta vez com obscuros traços mórbidos de observarem um carroceiro embriagado com seu bando de amigos, todos podres de bêbado, gargalhando e fazendo bagunça espancando uma égua completamente desnutrida e velha que fazia toda a força que tinha para puxar a carroça dos infelizes sem conseguir sair do lugar, a cena vai tornando-se mais intensa e perturbadora a ponto de que já ajoelhada de tanto apanhar e ser chicoteada a égua desiste de sair do lugar, arfando desesperada e então o carroceiro termina de mata-la com um pedaço de pau enquanto o jovem Raskolnikov lavado de lágrimas e desespero se aninha no colo do pai enquanto grita com pleno pulmão pedindo para que parem de fazer aquilo.

   Ou seja, acima de qualquer coisa, Crime e Castigo é um livro da angustia psicológica do protagonista, e de todo o processo que se segue a partir dessa angustia. Muito se tira e se questiona ao ler Crime e Castigo, por que, muito de Raskolnikov é encontrado no homem que questiona, no homem que raciocina, da mesma forma que em outros grandes personagens dessa obra. Normalmente é considerado um divisor de águas, do tipo que torna um leitor jovem em um leitor homem. A visão de exterminar um verme desnecessário do mundo (nesse caso uma velha agiota que empobrecia a todos) torna-se um ponto tentador para o protagonista. Apesar dos pesares, ou seja, de toda a perturbação brutal que se passa dentro do personagem, o desfecho poderia ser diferente, mas o que vemos é que o próprio criador da tese não suporta seu próprio modelo e torna sua perturbação praticamente materializada em doença. A luta interna toma formas imensas e mais de uma vez Raskólnikov tenta se entregar as autoridades.

   Crime e Castigo é um romance para gente adulta, no sentido mais sincero da palavra, se você tem dificuldade em lidar com conteúdos densos a respeito da consciência, da humanidade, da dor e do sofrimento, quem sabe seja melhor deixar para outro momento, ou nem ler. Quando era mais jovem pensava que Dostoiévski era difícil pela sua própria literatura, pelo método de escrita, por ser Russo, mas não, o autor é difícil por que vai te machucar mesmo, machucar seu senso de humanidade. Em termos técnicos, o mais difícil mesmo é acostumar com os nomes russos, nomes e sobrenomes, e vários e vários. Mas depois de um capítulo e meio você já nem vai lembrar que achava difícil acompanhar. E para seguir a tradição, a recomendação é que leiam a edição da Editora 34, traduzida direto do russo em ótima qualidade.

Para quem gosta de: RússiaNietzsche, drama psicológico, literatura russa, literatura investigativa.

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