A predominância de histórias de conquistas e vitórias abandonou os quadrinhos adultos há muito tempo. Por mais melancólico ou mórbido que sejam, os temas adultos e “pesados” representam muito mais o homem moderno do que os reflexos plásticos e débeis de um simulacro mal resolvido em torno da jornada do herói. É questionável o quanto estamos de fato fora da jornada do herói e quanto dessa saída é saudável para o desenvolvimento de nossa atualização de sistema do “inconsciente coletivo”. O que queremos passar aos mais jovens? Talvez essa pergunta pudesse ter validade, caso nossa geração perturbada não fosse consequência direta de um momento anterior de desconstrução de valores, montada no imediatismo do prazer sem rumo e do desejo de rebelar-se ao stablishment. Nossos filhos serão netos da pós modernidade, certamente vivenciarão sua maturidade real em uma outra terra que desconhecemos ainda. O que julgamos impróprio ou bizarro é apenas fragmento refletivo de toda uma onda que progrediu, teve momentos de ápice e dissipou-se na sociedade.

   Hoje, ao invés de chocar com o fantástico, o estranho e assustador, choca-se com o real, o mundano e o fracasso. O retrato do pós adolescente que sabe que é um fracassado como “homem”, mas banha-se em insípida intelectualidade rançosa, cheia de auto escárnio e sarcasmo entope as redes sociais. Não por acaso o que chama atenção em Black Hole, visceral Graphic Novel de Charles Burns é exatamente seu flerte com o meio termo, a corda bamba entre a pós modernidade e o fantástico ainda presente no imaginário de alguns, mesmo que oculto por camadas infindáveis de memes e frases auto depreciativas. Muita da “inocência” presente na visão de mundo dos personagens se dá pelo fato da história se passar na década de 70, quando imperava no mundo, mais precisamente nesse caso, na América do Norte, um conceito diferente de “o que é a realidade”. Não que o mundo fosse mais inocente nas décadas passadas, mas estamos claramente superando nossos próprios limites dia após dia e isso não é segredo para ninguém.

   Black Hole fala sobre a juventude, a clássica juventude que quer apenas duas coisas (quando observada de uma forma rudimentar e simplista), que é: foder e se drogar. Nenhum adolescente precisa de outra coisa se não isso, ainda que estejamos centrados no adolescente classe média livre de fome, de violência tribal ou de guerras infindáveis do oriente médio. Provavelmente se você está lendo esse texto, você está na faixa típica de cidadão que pode ser taxado de pós adolescente ou adulto padrão. O interessante de quadrinhos como Black Hole (ou mesmo de livros/filmes como As vantagens de ser invisível – ainda que não tenha NADA a ver com Black Hole) é que estamos lidando com conteúdo adolescente feito para adultos consumirem. Para que este possa digerir a experiência com um certo grau de nostalgia ou mesmo empatia com as situações. No caso da obra de Burns a empatia ali está presente no nervosismo do sexo adolescente, nas viagens fortíssimas de droga que os personagens se submetem e em toda aquela atmosfera da juventude.

   Naturalmente que o caminho aqui é oposto de uma experiência positiva ou memorável nos termos mais comuns dessa palavra. Black Hole flerta com o fantástico o tempo todo, mas principalmente e acima de qualquer suspeita, com a ideia de uma estranhíssima doença sexual que deforma aqueles que são infectados. Seja com uma horrível escamação de pele, bolhas no rosto, deformidades nos órgãos faciais ou mesmo em níveis mais obscuros como o surgimento de uma boca/vagina no pescoço de um dos protagonistas da história, ou mesmo de um rabo, completamente insinuoso saindo do cóxis de outra personagem importante do HQ. O que soa mais forte e interessante em Black Hole é exatamente o flerte de alguns desses personagens com essa bizarra situação, uma aceitação do absurdo intercalada ao medo da repercussão de tais atos. Coisa que fica completamente definida ao conhecer-se o acampamento nas matas ao redor da cidade, onde escondem-se aqueles que foram infectados, que vivem “à margem”.

   Naturalmente com o passar das páginas é impossível que não surjam opiniões e hipóteses a respeito da estranha doença e da relação com o conceito de buraco negro, muitas criticas tratam a doença desconhecida como uma metáfora para a Aids. Coisa que eu particularmente não engulo. Soa muito superficial e ilógico. Qualquer doença conhecida e comum, transmissível pelo sexo não cai bem nessa ideia do quadrinho. A necessidade de encontrar bases para análise e explicação ao que é fantástico é um clássico defeito do homem intelectualizado. Black Hole funciona muito melhor apenas observado, como quando se observa uma imagem única e incrível e não sobra espaço para interpretações. Da mesma forma que Lynch espera que observemos um de seus filmes, devemos observar Black Hole, deixando de lado a necessidade de divagar e encontrar o nome da doença apresentada.

   A arte de Burns é um complemento fundamental para o potencial da obra em sua tarefa de nos angustiar e sufocar. Seu traço grosso e forte, porém preciso permeia todas as páginas, o tempo todo, sem cessar. Cenários detalhados, planos abertos incrivelmente desenhados ou mesmo traços minimalistas, tudo fica intenso em suas mãos. A incrível arte de capa e contracapa já anunciam o que vem pela frente. O estilo livro do ano dos estudantes com um processo de “antes e depois” assina o ponto final da obra. Enfim, muita coisa pode ser dita do universo criado por Burns nesta juventude que oscila entre o desejo de liberdade e rebeldia e o flerte com o bizarro, com o “cronemberguiano” desejo pelo horror sexualizado. Muito pouco de Black Hole tem qualquer crítica social, certamente se o buraco negro significa algo, esse algo é a sensação de solidão e incertezas que a juventude causa a todo e qualquer ser humano. Ao deparar-se com uma ruptura tão grande de si próprio para com o cosmos ao seu redor, flertamos com o vazio que nos cerca.

Pra quem gosta de: Seattle, adolescência, angustia juvenil, maconha, HQ preto e branco e referências pop.

Onde encontrar:  Edição importada
                               Edição nacional (Darkside)

 

Fonte das imagens: 1 (acervo pessoal), 2, 3 (imagem do destaque)


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