O estranho projeto gráfico desta incrível edição da Cosac Naify, seja pela capa pintada pelo grande Lourenço Mutarelli (que já remete a uma situação angustiante e profunda envolvendo o protagonista e que só fica claro na metade do romance) ou seja pela anormal formatação do conteúdo na diagramação do texto, já torna A máquina de fazer espanhóis um livro peculiar e maravilhoso. Um grande romance português de um grande escritor angolano. Valter Hugo Mãe escreve tudo em letra minúscula, seja seu nome, seja o conteúdo inteiro. Apenas ponto final e virgula. Os primeiros capítulos são para te acostumar com o autor, assim como é um pouco estranho iniciar a literatura russa e seus infinitos personagens com infinitos nomes compostos. Mas rapidamente as virgulas e letras minúsculas tornam-se mero detalhe que pode ser ser visto como um capricho egocêntrico do autor, ou uma espécie de metáfora velada, depende dos olhos de quem vê.

   Um romance sobre a aceitação da terceira (ou quarta idade) diante da morte da pessoa amada e da incapacidade de opinar a respeito de seu próprio futuro é no mínimo indigesto ao primeiro olhar, mas Mãe consegue tornar essa indigestão no mínimo fascinante. Ao nos colocar como observadores do pensamento fatalista, ateísta, amargurado e as vezes sarcástico do senhor Silva (um silva qualquer), idoso de 84 anos que começa o livro perdendo a esposa enquanto vê o mundo despencar em água no lado de fora da janela da clínica onde espera respostas sobre a saúde da amada, o autor comprime nós, jovens leitores a experimentar a vida lenta e difícil de um corpo velho e cansado, mas de uma mente inteligente e intensa. A primeira metade do romance é dolorosa e desesperançosa. Silva não quer estar ali, não vê motivo para a vida, a mulher está morta, o filho, maldito seja, nem mesmo apareceu no velório da mãe, a filha até quer o visitar, mas traído, com dor no coração, traído e posto em um asilo, simplesmente não quer vê-la, para que iria querer?

   “…como faria falta ferrarmos toda a gente e vingarmo-nos do mundo por manter as primaveras e a subitamente estúpida variedade das espécies e as manifestações do mar e a expectativa do calor e a extensão dos campos e as putas das flores e das arvorezinhas cheias de passarinhos cantantes aos quais devíamos torcer o pescoço para nunca mais interferirem com as nossas feridas profundas. que se fodam. que se fodam os discursos de falsa preocupação dessa gente que sorri diante de nós mas que pensa que é assim mesmo, afinal, estamos velhos e temos de morrer, um primeiro e o outro depois e está tudo muito bem, sorriem, umas palmadinhas nas costas, devagar que é um velhinho, e depois vão-se embora para casa a esquecerem as coisas mais aborrecidas dos dias. onde ficamos nós, os velhinhos, uma gelatina de carne a amargar como para lá dos prazos. que ódio tão profundo nos nasce.”

   Silva passa seus dias ruminando a angustia da idade, em dissertações filosóficas profundas e muito bem construídas. É como uma criança acuada, porém ao contrário. Mas o livro não é apenas sobre isso, Mãe causa uma ruptura no romance exatamente no momento que, já levemente acostumado com seu destino final, morrer no asilo “Feliz Idade”, Silva conhece um dos moradores do lugar: Esteves. Por acaso, Esteves sem metafísica, o personagem do poema “A tabacaria”, de Fernando Pessoa. Naturalmente Silva não acredita de imediato que seja ele, mas ao conversar com o velho quase centenário, acaba por se convencer. Esse personagem quase mitológico, uma sacada fantástica do autor traz à vida de Silva um ponto de mutação, uma base para sua renovação como pessoa, uma visão além da visão.

   O segundo ato de Silva mostra um homem muito mais livre dentro de si mesmo, que já não amargura-se com a vida o tempo todo, mas tem seus pequenos prazeres, sua filosofia de observação do mundo confessada ao autor indiretamente já carrega menos no niilismo e flerta mais com as aventuras do homem, descobrindo uma nova vida dentro de uma antiga existência. Uma espécie de última aventura, que supera a necessidade do físico, dado suas limitações humanas, mas que alça voo para territórios até então inexplorados pelo mundano e rabugento protagonista. Tanto que chega a declarar:

“…eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades”

   Sinceramente é difícil pensar que Valter Hugo Mãe não passou pelos 84 anos do senhor Silva, dada a profundidade de raciocínio e emoção expresso pelo personagem, mas ao saber que o livro tem algo de relação íntima com seu próprio pai, que não pode viver a “melhor idade”, o leitor compreende o quão fundo quis e foi Mãe, para entregar essa obra sensibilíssima, que de longe já é um clássico contemporâneo da literatura portuguesa. Infelizmente a edição primorosa aqui comentada está esgotada do mercado e só pode ser encontrada por preços um pouco salgados em sebos ou vendedores particulares, mas sendo este um livro indispensável, vale muito a pena pegar a bela edição da editora Biblioteca Azul.

Pra quem gosta de: Literatura Portuguesa, drama psicológico, fluxo de consciência, ateísmo com toques de bom humor e spin off literário.

Edições disponíveis no mercado:

Biblioteca Azul: 264 páginas

Fonte das imagens: Foto do autor; Todas as outras.


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